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quarta-feira, 15 de agosto de 2012

A Ilustre e Imperturbável Clientela


EM SETEMBRO de 2011, perguntado a Victor Gaspar porque razão havia fortunas que estavam dispensadas de participar do mesmo esforço que estava a ser imposto, fria e inapelávelmente, às pensões e rendimentos de trabalho, Sua Pausada Lentidão, entre outros ambíguos argumentos, respondeu que tal iria perturbar o funcionamento da máquina fiscal, que estava habituada à papinha feita e garantida dos habituais contribuintes, além de que desassossegar os tais dinheiritos, era um convite a que aqueles capitais emigrassem.

Soube-se agora que o Estado conseguiu uma receita extraordinária de 258,4 milhões de euros, colectando 3,4 mil milhões de património mobiliário escondido fora de Portugal, nomeadamente em paraísos fiscais, aplicando-lhe uma taxa simbólica de 7,5%, e mantendo-se os seus autores num confortável anonimato, livres de responsabilização criminal e só faltando pedir desculpa pelo incómodo, muito embora a exportação e ocultação de fortunas e seus derivados, continue a constituir um crime de natureza fiscal.

A possibilidade de taxar este património foi o resultado da troca de informações do Governo com um maior número de jurisdições e países, disponíveis para combater a evasão fiscal, porém, ainda muito longe da totalidade, o que significa que continua a haver muito património que persiste em gozar, descansadamente refastelado, as delícias dos paraísos fiscais, que se mantêm fechados e irredutíveis a qualquer tipo de colaboração.

Embora o tratamento dado a estes incumpridores e fugitivos da máquina fiscal, seja bastante diferente da do vulgar contribuinte, acontece que o Governo continua a rejeitar que esta iniciativa seja entendida como uma amnistia ou perdão fiscal. No entanto, já em 2010, quando o actual secretário de Estado Paulo Núncio trabalhava no escritório de advogados Garrigues & Associados, fez questão de divulgar por escrito junto dos seus efectivos e potenciais clientes, o regime excepcional de regularização tributária dos capitais saídos ilicitamente do país, classificando-o de programa de amnistia fiscal e escudo protector desses capitais, na medida em que já não requeria a sua obrigatória repatriação para Portugal.

Enfim, como se pode ver, tudo gente ilustre e imperturbável, a receber tratamento VIP, indiferente a que Portugal perca a classificação de país, para ganhar a de sítio mal frequentado, além de que não me admirava nada que no próximo dia 10 de Junho, aqueles anónimos e respeitáveis refractários fiscais, viessem a ser agraciados com alguma Ordem ou Comenda, por valorosos, esforçados e patrióticos actos em prol da pátria.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

A Força da Razão

«(…) O Orçamento de 2011 ficará na história como aquele que transformou o Fisco num mecanismo de transferência dos recursos dos pobres directamente para os mais ricos. Mário Soares já tinha colocado o socialismo na gaveta. Sócrates deitou-o ao lixo.»

Parágrafo final do artigo de Paulo Morais, intitulado "Pior é Impossível", publicado no JORNAL DE NOTÍCIAS on-line de 8 Dezembro 2010

domingo, 24 de outubro de 2010

Denúncias

UM bloger da nossa praça não acha bem que a BANCA esteja a ser forçada a denunciar clientes que constem da lista negra do FISCO, coisa que é habitual noutros países da Europa, e não só. Diz ele que acha que a PIDE nunca chegou ao extremo de decretar a obrigatoriedade da denúncia. Pois não, de facto a PIDE/DGS não decretava nada e até nem tinha competências na área tributária, mas é sabido que tinha carta branca e costumava aplicar a tortura do “sono”, da “estátua” e outras “carícias” sobre os detidos debaixo de detenção e interrogatório, para obter confissões, denúncias e outras informações de natureza política, muitas vezes infundadas ou imaginárias, dado que os detidos a elas recorriam, “in extremis”, como forma de fugir ao suplício.

NOTA – Ilustração de João Abel Manta