
Este ano a Academia Sueca decidiu atribuir o Nobel da Paz ao cidadão chinês Liu Xiaobo. Confesso desde já que foi a primeira vez que ouvi falar no homem, crendo mesmo que se já tivesse ouvido o nome não o teria fixado, porque com nomes sou do diabo.
Liu Xiaobo está preso na China, acusado de “tentativa de subversão contra o poder do estado”, um crime vago, logo arbitrário pela sua vacuidade. Pelos vistos este crime, no caso de Liu Xiaobo, resulta da assinatura de um texto manifesto a “
Carta 08”, que li e assinaria sem reservas.
Aliás, em Portugal, a decisão de prender alguém por estas razões violaria vários preceitos constitucionais, desde logo o Artigo 21º ( direito de resistência); “Todos têm o direito de resistir a qualquer ordem que ofenda os seus direitos, liberdades e garantias e de repelir pela força qualquer agressão, quando não seja possível recorrer à autoridade pública.” Liu Xiaobo não foi tão longe, associou-se a outros cidadãos chineses que tornaram públicas as suas opiniões sobre a situação política interna na china. Até agora, o Governo chinês, que seja do meu conhecimento, não acrescentou outras acusações a este cidadão, além deste delito de opinião.
Nas reacções à atribuição desta distinção o Governo Chinês acentuou as ameaças de represálias diplomáticas e económicas sobre a Suécia, país onde está sediada a Academia Nobel, ignorando que num estado não totalitário, como é a China, o poder dos Governos tem limitações e que talvez uma das limitações do Governo Sueco será a impossibilidade de determinar as posições da Academia que atribui os Prémios Nobel.
A China é um Regime Político Totalitário que nega aos seus cidadãos direitos, liberdades e garantias que no nosso património cultural e civilizacional foram ganhos e instituídos mediante o auto-sacrifício de muitos Liu Xiaobo. Na sua inserção internacional o Estado Chinês tem uma postura pouco diferente de qualquer outro imperialismo histórico, determinando as suas acções politicas e económicas pelos objectivos da influência e do controlo.
Para quem, como eu, procura fazer uma crítica de superação da globalização capitalista, encaro ainda o actual papel da china nesse campo como profundamente negativo. A integração da China no sistema de comércio mundial, a partir da década de 70 do século passado, constituiu um novo fôlego para o sistema capitalista mundial. Nunca a expressão “negócio da China” teve tanto conteúdo como hoje. A disponibilização no mercado internaciacional de uma reserva de mão-de-obra vastíssima, enquadrada por padrões sociais e económicos próprios da velha revolução industrial, a falta de observância de exigências ambientais e o espartilho de um sistema político centralizado e opressor, resultaram numa pressão sem precedentes sobre os níveis de desenvolvimento integral já alcançados por muitas sociedades durante mais de 150 anos.
O capitalismo encontrou na China e no argumento chinês um terreno fértil ao seu desenvolvimento, por um lado aproveitando as condições únicas de exploração que um regime capitalista totalitário pode oferecer, e historicamente sabemos bem como o capitalismo se dá bem com o totalitarismo, por outro utilizando argumentos objectivos para a redução dos padrões económicos e sociais nas sociedades mais desenvolvidas.
Liu Xiaobo talvez esteja preso um pouco por todos nós.