terça-feira, 11 de março de 2014

MANUEL DA FONSECA
15/10/1911 a 11/3/1993


No dia em que passam 23 anos sobre a morte de Manuel da Fonseca transcrevo um post de Carlos Caevalho no FB, seguido duma curta evocação minha.

CARLOS CARVALHO

Manuel da Fonseca, o homem, o intelectual, o escritor, o COMUNISTA. Lembramo-lo hoje, 11 anos após a sua morte! OBRIGADO CAMARADA!

Personalidade cativante, Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém a 15 de Outubro de 1911, no seio de uma família da pequena-média burguesia de província.
Originário de Castro Verde, o avô paterno, de raízes camponesas, estabelecera-se como ferreiro nesta vila próxima da costa alentejana, para escapar a perseguições motivadas por razões sociais e políticas.

O pai, que se tornaria empresário, era pintor autodidacta, grande conversador e contador de histórias.
Oriunda de uma família miguelista com ascendência espanhola, a mãe era filha de farmacêutico.
Ambas as casas, a dos avós maternos e a dos paternos, proporcionaram a Manuel da Fonseca o primeiro convívio com os livros.
Na biblioteca do avô paterno viria a descobrir obras de Garrett, Victor Hugo, Zola, Eça e mesmo O Capital, de Marx.

Após a morte do irmão mais novo, que marcou dolorosamente a sua infância (leia-se o conto «O primeiro camarada que ficou no caminho», de Aldeia Nova), os pais vão viver para Lisboa, ficando Manuel da Fonseca entregue aos avós.
Por volta de 1923, e a fim de prosseguir os estudos secundários, junta-se à família em Lisboa, regressando à vila natal por ocasião das férias escolares.
Frequenta várias escolas e, em 1926, no Liceu Camões é colega de Álvaro Cunhal, dois anos mais novo.

No final dos anos vinte e sobretudo na década de trinta, é a época em que Manuel da Fonseca publica os seus primeiros textos literários na imprensa (principalmente em O Diabo, espaço de divulgação por excelência dos neo-realistas) e, em simultâneo, procura garantir a sobrevivência numa capital cujos encantos aprende a descobrir – e cujos dramas retratará, mais tarde, em livros de ambiência urbana como Um Anjo no Trapézio (1968), Tempo de Solidão (1973), O Vagabundo na Cidade (2000, textos inicialmente publicados em 1967-68) e Pessoas na Paisagem (2002, crónicas vindas a lume entre 1963 e 1971).

Praticante entusiasta de desporto (chegou a jogar futebol nos iniciados do Sporting; praticou esgrima, ténis, equitação, toureio e automobilismo; venceu, inclusive, um campeonato nacional de pesos médios em boxe), Manuel da Fonseca preza, sobretudo, o convívio com companheiros de boémia – que cultivará como ninguém e lhe franqueará as portas das tertúlias de escritores e artistas que, pelos cafés da baixa de Lisboa, em finais dos anos trinta, estão na origem do movimento neo-realista: Redol, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Pavia, Abel Manta, Lopes-Graça e outros.

Mais tarde, relacionar-se-á com o grupo de Coimbra – Joaquim Namorado, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, Fernando Namora – que, em 1941, lhe edita o segundo livro de poesia, Planície, na emblemática colecção «Novo Cancioneiro», com a qual o Neo-Realismo português consubstancia, em poesia, um ideário estético a que subjaz um «novo humanismo», ou seja, um posicionamento ideológico perante o mundo, de raiz marxista e antifascista, solidário com os deserdados da vida.

Antes, Manuel da Fonseca frequentara a Escola de Belas Artes, mas começa entretanto a trabalhar.
Com uma estabilidade laboral problemática, conhecerá, ao longo da vida, os mais diversos empregos.
Como escreve Luísa Duarte Santos, «Faz e refaz a sua vida. Muda de lugares. Muda de amores. Muda de empregos. Precisava de ócio, o ócio essencial ao artista e ao processo criativo».
Dos arquivos da PIDE/DGS, já por volta dos anos sessenta, «constam informações de que tem a profissão de escritor e que vive exclusivamente dos rendimentos do seu trabalho».

Para melhor se entender a personalidade de Manuel da Fonseca – tanto o percurso do intelectual lutador, comprometido com as questões candentes do seu tempo histórico, como a sua condição de protagonista do Neo-Realismo português –, importa no entanto salientar outros traços, no campo da intervenção política, habitualmente relegados para segundo plano por críticos e entrevistadores, designadamente a sua fidelidade ao ideal comunista.

Os primeiros contactos de Manuel da Fonseca com o PCP datam dos anos trinta, ou seja, de um tempo de juventude em que encetava um convívio, que se tornaria profícuo, com figuras ligadas às artes, às ciências e à vida política, como Bento de Jesus Caraça, o arquitecto Keil do Amaral, os pintores Maria Keil e Pavia, o escritor e crítico musical Manuel de Lima e homens de letras como Ferreira de Castro, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, Redol.

Militante comunista desde os anos quarenta, integra o colectivo partidário numa fase decisiva da história do Partido – a da Reorganização de 1940/41 e dos III e IV Congressos (o I e o II ilegais), realizados respectivamente em 1943 e 1946 –, coincidente com o reacender da luta clandestina e da mobilização das massas contra o fascismo, com especial incidência no Alentejo e nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo.
Ou seja, um período em que boa parte dos quadros de direcção formados nos anos da Reorganização provinha da classe operária e se forjava na intervenção directa em lutas de massas (5), e no quadro de uma dinâmica que passou igualmente pela juventude e pela intelectualidade comunistas.

Como escreve Manuel Gusmão, «a primeira metade da década de 40 exemplifica uma tendência que marca a história do PCP: é nos momentos em que cresce (se amplia, se aprofunda) e se renova a influência orgânica na classe operária que cresce também a influência entre os intelectuais.
Esta tese pode formular-se também assim: não há qualquer incompatibilidade, antes há uma correlação efectiva, entre influência operária e influência intelectual.»
A actividade política de Manuel da Fonseca não cessou com o fim da resistência ao fascismo após o 25 de Abril. Continuou a ser um homem e artista interveniente, quer no seio dos intelectuais comunistas, e não só, quer, por exemplo, como candidato da CDU por Setúbal, em 1983, nas eleições legislativas desse ano.

Gostaria de registar as sua principais obras, Cerromaior, Aldeia Nova , «O sete-estrelo», «Viagem», «Nortada» e outras histórias, Fogo e as Cinzas, Seara de Vento, O vagabundo na cidade, Um anjo no trapézio, etc."



J EDUARDO BRISSOS

Conheci Manuel da Fonseca, ou mais propriamente alguns dos seus contos e poemas, via Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, aos onze anos, numas longas férias de Verão passadas no Cercal do Alentejo, freguesia do seu Santiago do Cacém.

Uns poucos de anos mais tarde (para ai em meados dos 60) quando no Atlético de Moscavide organizámos um ciclo de colóquios com escritores e jornalistas, não só propus que o convidássemos como me calhou a mim contactá-lo.

La consegui o telefone do escritório onde trabalhava, e depois de explicar à senhora que me atendeu que desejava falar com o escritor Manuel da Fonseca, num tom que certamente indiciava a minha total e incondicional admiração, a senhora, sem sequer me responder, dá um berro lá para não sei onde: Oh senhor Fonseca, é para si.

Combinámos o que havia para combinar, e no dia acordado, um pouco atrasado, com ar afogueado e boné, ali estava a cumprimentar aquele grupo de operários fabris e jovens suburbanos, como se se tratasse de velhos e estimados companheiros de letras.

Falou-se de alguns dos seus livros, do seu Alentejo, a que muitos de nós também estávamos ligados, da vida nas fábricas, da esperança num futuro melhor.

Nunca mais me cruzei com ele mas sempre que leio um dos seus livros é como se o Manuel da Fonseca, com quem passámos aquele serão há quase cinquenta anos, ali esteja a meu lado, no seu jeito simples e directo de falar, mais uma vez encantar-me com a sua absoluta magia de poeta contador de estórias.

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