terça-feira, 10 de outubro de 2017

"DOCUMENTOS COM HISTÓRIA", Outubro de 2017 - Nos Oitenta Anos da "Greve dos Rapazes"


Julho de 1937, na manhã de um dia não determinado, uma «manifestação de greve de braços cruzados» está em marcha numa das oficinas da Fábrica de Loiça de Sacavém. O mestre-geral tinha suspenso dois menores operários, por uma falta disciplinar, e cerca de 60 operários da sua oficina quiseram mostrar o desagrado quanto ao sucedido. Dário Canas, chamado pela administração da fábrica, na qualidade de administrador do concelho, fala com os «rapazes de 13 a 20 anos» e convida-os a retomarem o seu trabalho, por estarem a cometer uma falta punida por lei, dizendo-lhes ainda que perdoava a sua atitude por serem de pouca idade.

Na parte da tarde, o trabalho não foi retomado, Dário Canas volta à fábrica e depois de mais uma conversa tudo parece voltar ao normal. Quatro dias depois, durante a noite, é lançada para uma janela da casa do mestre-geral uma bomba que causa apenas estragos materiais. Uma patrulha do Regimento de Artilharia Pesada nº 1 vai policiar o local e é avisada a Polícia de Vigilância e Defesa do Estado (PVDE). Como consequência, por insistência da PVDE ao administrador do Concelho, são presos três operários e uma operária para averiguações.

No mês seguinte, no dia 9, um grupo de cinco operários dirige-se, no fim do dia de trabalho, ao mestre-geral «intimando-o a promover a imediata soltura dos seus companheiros presos». Esta atitude faz suspeitar que qualquer coisa de grave poderia acontecer, colocando em alerta a administração da fábrica, o administrador do concelho e as forças militares presentes em Sacavém.

De facto, no dia seguinte comparecem no local vários agentes da PVDE e os militares de Artilharia. Às 7h45 entram na fábrica cerca de mil operários, mas o pessoal da oficina que tinha feito a greve no mês anterior é retido e impedido de entrar. De seguida são procurados e detidos os cinco operários, que intimaram o mestre-geral, aos quais se juntaram mais dezassete criteriosamente escolhidos pelos agentes da PVDE.

Quando a viatura que os conduziria a Lisboa se prepara para sair, ouve-se tocar a rebate o sino da igreja, acorrendo aos portões da fábrica grande número de mulheres, «que em altos gritos pediam a libertação dos presos», assim como os operários abandonam o seu trabalho e começam a protestar, barricando-se dentro da fábrica.

Perante a debilidade de forças para suster a multidão amotinada, foi solicitada a presença da Guarda Nacional Republicana, que invade a fábrica para retirar os operários «mercê d’algumas pancadas dadas nos mais renitentes». Às treze horas «todos voltaram normalmente ao trabalho sem que mais perturbações se tenham dado».

A 14 de agosto de 1937, Dário Canas, que também era o presidente da Câmara Municipal de Loures, elabora um relatório muito pormenorizado da sua visão dos acontecimentos aqui resumidos, conhecidos futuramente como a «Greve dos rapazes» e um marco do movimento operário em Sacavém.

Também poderá visualizar o documento no Portal do Arquivo, através do link: http://app.cm-loures.pt/portalarquivo/agenda.aspx?displayid=148.

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