quinta-feira, 28 de abril de 2016

UMA PROPOSTA PARA A NOVA BIBLIOTECA ARY DOS SANTOS DE SACAVÉM


Num concelho de tradição operária e de população maioritariamente trabalhadora seria natural que a única biblioteca municipal existente no concelho de Loures, a Biblioteca José Saramago, dedicasse um pouco mais de atenção à riquíssima tradição escrita do Movimento Operário e do Socialismo.

Contudo é confrangedor aquilo que neste campo a biblioteca de Loures disponibiliza aos seus leitores: Meia dúzia de livros de Marx e Engels, que não inclui obras fundamentais como O Capital, muito pouco de Lenin ou Trotski, UM único titulo de autores como Luxemburg, Gramsci, Stalin, e Castoriadis, e ZERO livros de Proudhom, Bakunin, Bernstein, Blanqui, Kautsky, Kropotkin, Hillferding, Kollontai, Lapidus, MaoTse Tung, E P Thompson, e outros.

A proposta é que na, em breve a inaugurar, Biblioteca Ary dos Santos de Sacavém, se dê uma maior atenção aos clássicos do Movimento Operário e do Socialismo e se defina uma politica de aquisições que inclua igualmente obras mais recentes, com especial atenção para livros sobre a realidade portuguesa.

Parte do espólio de livros de Herberto Goulart, oferecido à Câmara de Loures em 2014 e que irá integrar o catálogo da Biblioteca Ary dos Santos, com importantes e valiosas obras naquelas áreas, poderá ser a base dum núcleo bibliográfico sobre o Movimento Operário e o Socialismo, a alargar e manter actualizado na nova biblioteca de Sacavém.

sexta-feira, 22 de abril de 2016

LUTAR PELOS DIREITOS DOS TRABALHADORES E DERROTAR UMA DIRECÇÃO SINDICAL AMARELA.



Em Setembro de 1975, e no quadro da ofensiva reaccionária que culminaria no 25 de Novembro, no importante Sindicato do Comércio de Lisboa (à data um dos maiores sindicatos do país, e agora parte do CESP http://bit.ly/1SeFV58 ), uma lista PS/MRPP ganhava as eleições, para o triénio 1975/78, com 61 % dos votos, contra 39% da lista unitária.

Esta derrota seguia-se a outras de listas apoiantes da Intersindical, ocorridas durante os meses de Agosto e Setembro de 1975, como as dos sindicatos dos Escritórios de Lisboa, Bancários do Sul, Seguros, naquilo que foi o primeiro passo para a criação da UGT.

Ao contrario do que aconteceu nos outros grandes sindicatos de serviços, onde os amarelos da UGT se mantêm ainda hoje, no Comércio de Lisboa, 20 meses depois, em eleições antecipadas em Junho de 1977 (as mais participadas de sempre), uma outra lista unitária ganharia o sindicato de volta para o movimento sindical unitário com 58% dos votos, contra 41% da lista de base partidária PS, PSD e CDS.

A história exemplar dos trabalhadores do comércio e serviços do distrito de Lisboa que, durante esses quase dois anos, e mesmo fora dos corpos gerentes do Sindicato, não abdicaram de travar importantes lutas sindicais, ao mesmo tempo que denunciavam a actuação conciliadora e de traição da direcção amarela, é uma história que merecia ser contada.

Alguns dos protagonistas chave dessa luta, como o Tolentino Lourenço e o José Manuel Barros, já não estão infelizmente entre nós, mas ainda há por aí muitos delegados e activistas sindicais, que participaram no chamado "Grupo dos 28", que podiam, e deviam, meter mãos à obra.

Vamos à procura dos amigos que participaram nisto, Joaquim Labaredas, Maria Odete Simão, Jorge Estima, João Bernardino, Pedro Azevedo Peres?

segunda-feira, 18 de abril de 2016

INDIGNAÇÃO E REPULSA


Indignação e repulsa é o mínimo que nos causa a intervenção do deputado federal Jair Bolsonaro ao dedicar o seu voto a favor do impeachment da presidenta Dilma Rousseff, ao fascista coronel Carlos Ustra, chefe do DOI e torturador do tempo da ditadura militar (1964-85).

Mas também não devíamos ser indiferentes ao facto de, por cá, termos o antigo ministro do governo fascista de Salazar, Adriano Moreira, o criminoso que reabriu o Campo da Morte do Tarrafal, sentado no Conselho de Estado.

Ao menos no Brasil ainda houve alguém que cuspiu na cara do fascista.

(Na foto Jean Willys, deputado do PSOL, a cuspir na cara do fascista Bolsonaro)

sexta-feira, 18 de março de 2016

DO QUE SE DEVIA (SOBRETUDO) FALAR, QUANDO SE FALA DA CORRUPÇÃO DOS POLÍTICOS


A corrupção não é apenas uma falha moral e ética dos políticos, mas sobretudo a actividade muito lucrativa dos que usam os políticos para se apropriarem indevidamente dos recursos do Estado (milhares de milhões ano sim, ano sim), ou que recorrem aos políticos para obter informações e mover influências que contribuam para aumentar os seus rendimentos e lucros.

Claro que aos políticos, até pela sua qualidade de representantes dos cidadãos, cabem responsabilidades especiais, e cada acto de corrupção dum politico, e de quem o corrompe, deve ser objecto de severa condenação ética e/ou criminal. E não são apenas os casos de corrupção em troca de qualquer coisa, é também uma outra miríade de situações, como por exemplo os casos de ministros que pelos milhões que deram a ganhar a uma empresa, ou pela informação de que dispõem ou pelas portas que podem abrir e influências que conseguem mover, vão depois de sair do governo para empregos milionários nas empresas beneficiadas.

Mas toda esta corrupção à volta da politica, não é como às vezes se diz um cancro, uma anomalia social, esta corrupção é parte integrante do sistema em que vivemos, é mesmo uma das suas característica marcantes, como se pode constatar pelos casos que, por todo o mundo, são diariamente denunciados, a ponta do enorme e invisível iceberg da corrupção.

Discutir a corrupção, sem apontar os seus maiores beneficiários e escondendo o seu carácter sistémico, é ingenuidade duns, os que estão neste debate de boa fé mas pouco informados, e desonestidade doutros, os que ao centrarem as acusações apenas nos políticos mais não pretendem do que substituir os corruptos dos outros pelos seus próprios corruptos, e ao mesmo tempo manter na sombra os principais beneficiários da corrupção, os grandes interesses económicos.

Em Portugal, num dos muitos exemplos que se pode dar sobre a grande facilitadora da corrupção, a promiscuidade entre os mundos da politica e dos negócios, cerca de metade dos que, desde o 25 de Novembro, passaram pelos governos do PS, PSD e CDS, foram empregados, ou tiveram ligações à Banca. Mais palavras para quê.

terça-feira, 15 de março de 2016

NÃO SE ESQUEÇA DA JUDITE.


Os homens são todos uns ingratos, não são ?

Anos a fio a Judite, ali, domingo sim, domingo sim, a dar-lhe as deixas, a fingir que ficava deslumbrada com as banalidades que o professor ia debitando, praticamente a levá-lo ao colo até à Praça Afonso de Albuquerque, e tudo para quê ?

Agora que é presidente anda aí num virote, em almoços e concertos, a falar de doçuras e de afectos, a distribuir beijinhos e abraços, e nunca mais se lembrou da dominical Judite.

Ao menos senhor presidente, um dia destes pergunte a um dos seus camareiros se o anterior inquilino não terá deixado por aí esquecida uma medalha, de preferência com uma fita que vá bem com a cor dos olhos da telegénica Judite.

E depois, que data e local mais apropriados para fazer a felicidade da .nossa doce e afectuosa Judite, do que no patriótico e diaspórico 10 de Junho, na cosmopolita e romântica Paris?

quinta-feira, 10 de março de 2016

AS DUAS POSSES DE MARCELO: COMO PR, E COMO CHEFE DA DIREITA


Se dúvidas ainda houvesse, o discurso de tomada de posse de Marcelo aí está para as esclarecer, aqui.

Eleito com base nos votos do PSD e CDS (e alguma penetração fora dessa área), Marcelo no discurso de ontem faz um corte radical com o Pafismo que nos desgovernou nos últimos quatro anos, e anuncia urbi et orbi, um novo rumo para a direita.

Perante a impossibilidade, a curto ou médio prazo, dum regresso da direita ao poder com base no programa e radicalismo da Paf, há que inflectir ao centro, dar a volta ao discurso, retomar o modelo do "arco da governabilidade" e ir criando as pontes que, em próximas eleições, possibilitem um entendimento com o PS.

Estratégia a que uma boa parte da direita já se rendeu, como é evidente do coro de loas suscitado pela tomada posse e o discurso de Marcelo.

Agora é esperar que Passos (que nem foi ao almoço em Belém) e o que resta do Pafismo implodam de vez, e procurar um novo rosto para o PSD que, com outra lábia, com outro tique, assuma o papel de líder da Oposição.

No entanto, embora a Marcelo se reconheça a visão e perspicácia para a criação destes grandes desígnios, já o mesmo não se pode dizer quanto à respectiva concretização. A sua conhecida hiper actividade, e a proverbial tendência de se enredar com a própria sombra, podem deitar tudo a perder.

Além disso, e mais importante, Marcelo e a direita recauchutada não vão ocupar sozinhos aquele cenário e, entre outras, há uma variável da equação que pode conduzir a um resultado diametralmente oposto daquilo que está nos planos de Marcelo.

Aí pergunta o estimado leitor: Mas afinal que variável é essa? E eu respondo: É o Povo, pá!

quinta-feira, 3 de março de 2016

QUE FAZER COM ESTA AUSTERIDADE?


O sadismo austeritário dos pafista acabou (morto de morte matada), mas a Austeridade continua para lavar e durar, e não é o OE de 2016, apesar de algum pequeno alivio para os trabalhadores e o povo miúdo, que vai pôr fim aos sacrifícios, nem promover o indispensável crescimento económico.

Lá de fora as perspectivas ainda são mais sombrias. Para além do desolador panorama económico a nível mundial, a economia europeia continua estagnada e a crise da Divida publica alarga-se a outros países. A isto junta-se a alta probabilidade de a nova onda da especulação financeira recair novamente sobre as dívidas soberanas, com Portugal a ser um dos primeiros alvos na mira dos agiotas.

Claro que existe um governo PS, apoiado por uma maioria à esquerda no Parlamento que já tiveram o mérito de nos devolver, entre outras coisas, a esperança.

E convém também lembrar que mesmo com austeridade é possível lutar contra a desigualdade, o desperdício e a corrupção. Repor direitos retirados e alargar outros. Combater a fuga ao fisco dos grandes rendimentos. Melhorar os serviços públicos. Controlar as grande empresas que nos impõem preços e outras condições escandalosas. Enfim, de pôr direito muito do que andamos há décadas a tentar consertar.

Já quanto à Austeridade propriamente dita não há repostas simples. Há que, com realismo e sem receios nem tabus, promover um debate alargado, que pelo menos nos aponte uma luz ao fundo do túnel, e que nos vá preparando para algum percalço (como sermos expulsos do euro ou o euro implodir).

O que não pode é ficar tudo isto apenas nas mãos do governo e da maioria à esquerda na AR. Só uma larga e empenhada mobilização social à volta destas questões, e um apoio claro às soluções que se forem construindo, poderá fazer da inédita, importante e indispensável convergência à esquerda, um efectivo contributo para a saída desta decadência sem fim à vista.

sexta-feira, 26 de fevereiro de 2016

ESTE BE JÁ NÃO É O QUE ERA


Bastou uma pequena aproximação ao Poder, para logo o BE começar a mudar o discurso e, mais grave ainda, a própria visão do mundo.

Sim, a que propósito um cartaz com um branquelas, quando todos sabemos que Jesus era negro, e muito provavelmente mulher?

Além disso onde o BE vê apenas um casal convencional (os dois pais), o que existiu de facto foi uma família precursora dos tempos modernos: um filho, uma mãe (ausente do cartaz, outra descriminação), e três pais: um homem, uma divindade, e uma pomba (descriminação de espécie e de género).

Em vez da bisonha família nuclear de que nos fala o cartaz do BE, o que nos conta a história é a vida duma jubilante relação pan-poli-amorosa.

sábado, 20 de fevereiro de 2016

ATIRADOS AO RIO


Com uma Comunicação Social que basicamente é um ramo da Industria de Entretenimento, e em que uma das suas mais profícuas actividades é o espectáculo da desgraça, já (quase) nada nos pode admirar.

Uma mãe em estado de hipotermia, uma criança morta e outra desaparecida, era de facto uma tragédia em que os abutres dos Mass Mérdia não podiam deixar de chafurdar.

Com base em alguns factos e poucos indícios, vão-se construindo as mais desencontradas e destrambelhadas narrativas, que ora põem as culpas na mãe ora as atiram para cima do pai, este último prestando-se inclusive a dar a sua contribuição voluntária para o circo mediático montado à volta do caso.

Hoje, mais uma vez sem quaisquer provas, a versão, que leio no jornal e que ouço na TV, é que as duas crianças foram "atiradas ao rio", o que faz nascer em mim o incontornável desejo de ver todos os que nos Mass Mérdia têm alimentado este repugnante folhetim, serem eles próprios, sem apelo nem agravo, profilacticamente ATIRADOS AO RIO.

sábado, 6 de fevereiro de 2016

E NÓS RALADÍSSIMOS COM O DÉFICE ESTRUTURAL


É que nem se fala noutra coisa aqui pelo bairro.

Um tipo entra no café do Sr Amadeu e a primeira coisa que lhe perguntam é como vai o seu défice estrutural, à porta da EB1/JI as mães e as avós dividem-se sobre qual a melhor maneira de limpar o pó ao défice estrutural, e até o dono do restaurante chinês me veio perguntar o que achava de passar a incluir na ementa um prato de porco com amêndoas à défice estrutural.

No entanto, e para falar verdade, tenho de admitir que sem estas cenas dos défices estruturais, dos saldos primários e do efeito induzido da TSU, o panorama cultural deste bairro seria uma autentica pasmaceira.

Enfim, o estimado leitor deve ter uma ideia do que estou a falar, tipos pessoal que só anda em transportes públicos, e com quem não se consegue ter uma conversa com a devida elevação técnico intelectual.

Gentinha que, se não tiver os estímulos certos, só fala de tretas como a miséria que ganham a trabalhar que nem uns mouros, do tempo que esperam por uma consulta com o médico de família que não têm, do preço do bilhete da Barraqueiro para ir ao Centro de desEmprego a Loures ou da reforma de miséria que acaba sempre antes do dia 15.

E aí eu pergunto: como estaria o nível intelectual deste bairro, sem o contributo inestimável destas questões técnico eruditas com que os Mass Mérdia nos vão brindando diariamente?

quarta-feira, 27 de janeiro de 2016

MARCELO: OS QUILÓMETROS DE AVANÇO E OS QUILÓMETROS DE ATRASO


Lembra Jerónimo de Sousa que na campanha eleitoral Marcelo "partiu com quilómetros de avanço", referência óbvia à sua notoriedade publica, nomeadamente como comentador dominical das TVs, mas também por ter sido levado ao colo pelos donos da Comunicação Social, que nesta campanha foram os seus mais dedicados e decisivos apoiantes.

Mas Marcelo também partiu para esta campanha à Presidência da República com quilómetros de atraso: os 38% da direita nas legislativas de Outubro seriam noutras condições um obstáculo inultrapassável, mesmo com todos os quilómetros de avanço.

Aliás, mesmo os quilómetros de avanço deveriam ter sido usados contra Marcelo (só no que ele disse ao longo dos últimos 4 anos nas homilias dominicais havia corda para "enforcar" um batalhão), não só colando-o irremediavelmente à direita que "ganhou" com 38%, mas também apresentando-o como o candidato a novo líder da Direita derrotada e decapitada em Outubro.

Considera o Comité Central do PCP que o resultado obtido por Marcelo, 52%, "comprova a real possibilidade (...) para ser derrotado se todos se tivessem verdadeiramente envolvido neste objectivo", e penso estar aqui o busílis da questão.

A incapacidade de apresentação dum candidato da esquerda, a bizarria da multiplicação de candidaturas para "fixar o eleitorado", a falta de comparência do PS, permitiram inclusive a Marcelo fazer da sua campanha um agradável passeio a caminho de Belém.

Derrotada e decapitada em Outubro, a Direita tem agora em Belém o líder que irá tentar fazer esquecer a devastação Pafista e reconstituir a direita numa versão menos agressiva, numa direita que aceite que a sua única hipótese de, a médio prazo, voltar ao governo é em aliança com o PS.

sexta-feira, 15 de janeiro de 2016

HÁ 97 ANOS ROSA LUXERMBURG E KARL LIEBKNECHT ERAM ASSASSINADOS À ORDEM DOS SOCIAL DEMOCRATAS ALEMÃES



1) A 4 de Janeiro de 1919, em mais um episódio da luta revolucionária dos trabalhadores alemães do período 1918-19, os trabalhadores de Berlim desencadeiam uma Greve Geral, que rapidamente se transforma numa insurreição;


2. A 6 de Janeiro o Governo social democrata, SPD, desencadeia uma severa repressão, chamando os Freikorps (tropas mercenárias) para aniquilar a revolta dos trabalhadores;


3. Os Freikorps, recuperam rapidamente o controlo das ruas bloqueadas por barricadas, e dos edifícios ocupados; 4. Muitos trabalhadores rendem-se, o que não impede os soldados mercenários de matar centenas deles;

5. Em pouco tempo, Berlim está completamente ocupada pelo militares;

6. Rosa Luxemburg publica a 14 de janeiro de 1919 o seu ultimo artigo, intitulado amargamente " A Ordem reina em Berlim "; https://www.marxists.org/archive/luxemburg/1919/01/14.htm

7. A 15 de Janeiro de manhã Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, dirigentes comunistas da Liga Spartakus, são presos;

8. A caminho da prisão são ambos assassinados (separadamente) pelos soldados que os tinham prendido;

9. O corpo de Rosa Luxemburg é atirado a um canal. No funeral um caixão vazio acompanha o caixão com o corpo de Karl Liebknech;

10. Um corpo identificado como de Rosa Luxemburg foi finalmente resgatado dum canal a 31 de maio.


segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

DE ADAM SMITH AO NEO LIBERALISMO - II


Para os liberais do sec XIX (e também narrativa ainda em voga em livros escolares, crónicas do Publico, e comentários do FB) o mercado é o prosaico ponto de encontro onde os indivíduos, prosseguindo objectivos próprios e diferenciados, procedem a trocas mutuamente vantajosas.

Mercado onde, sob os auspícios da celebrada e benfazeja mão invisível de São Adam Smith, se concretiza diariamente o milagre do equilíbrio entre os que vendem e os que compram, do equilíbrio entre a Oferta e a Procura.

Já na visão neo liberal, a inversão é completa: os objectivos individuais e colectivos passam a simples meios, obrigatoriamente subordinados ao fim ultimo da glória e proveito dos Mercados e da realização do lucro do Capital.

Aí, no fabuloso reino do neo liberalismo, somos todos mobilizados à força e, sob a bandeira do empreendedorismo, compelidos a marchar ao som da musica da produtividade, submetidos a avaliações de desempenho, obrigados a travar as gloriosas batalhas da competitividade, em mercados minados pelas assimetrias, onde cada um tem de se proteger das ameaças, explorar as fraquezas dos adversários, esmagar os inimigos, correr atrás das oportunidades, e sacar o que puder como se não houvesse amanhã.

(Ao ler o paragrafo anterior, o estimado leitor pode ficar com a ideia de que hoje estou um bocado para o apocalíptico, mas acredite que não estou a inventar nem a exagerar nada, limitei-me a pôr em português corrente o que os próprios dizem em neo liberalês).


Da saga "Umas coisinhas que você precisa de saber sobre o Neo Liberalismo e ainda não tinha tido coragem de me perguntar" pode também ler:
O NEO LIBERALISMO NÃO É UMA IDEOLOGIA I

sexta-feira, 1 de janeiro de 2016

O NEO LIBERALISMO NÃO É UMA IDEOLOGIA - I


O neo liberalismo, ou liberalismo de mercado, é uma retórica, um projecto político, e um conjunto de práticas que visam impor a lógica de funcionamento do mercado como modelo, principio organizador e escala de valores, não apenas à economia, como a todos os domínios e aspectos da vida em sociedade e do próprio indivíduo.

O neo liberalismo é uma forma de liberalismo radical, um projecto totalitário, desestabilizador do tecido económico, anti social e anti humanista, sem esperança nem futuro, que é urgente desmascarar, rejeitar, e derrotar.

terça-feira, 22 de dezembro de 2015

O QUE CONVÉM PERCEBER, PARA ENTENDER O QUE SE PASSOU NO BANIF


A dificuldade em entender o Sistema Financeiro (tal como em perceber a Teoria da Relatividade ou a Fisica Quântica) não tem tanto a ver com a sua reconhecida complexidade, mas sobretudo por alguns dos seus fundamentos estarem em absoluta e irreconciliável oposição com o nosso estimável senso comum.

Por exemplo, muitos de nós ainda pensamos que o dinheiro que um banco empresta aos clientes é proveniente das notas e moedas que outros clientes lá depositaram, o que não é realmente o caso. O que acontece é que o dinheiro que o banco empresta é criado pelo próprio banco. Surpreso?

De facto não é fácil aceitar com naturalidade que o sr. Saraiva, gerente da dependência bancaria do bairro, tenha o poder miraculoso de criar dinheiro (coisa que tanto nos custa a ganhar) a partir de coisa nenhuma.

Quando, por hipótese, peço um empréstimo de 10 mil euros ao banco, o que o sr. Saraiva faz, depois do pedido de crédito aprovado, é creditar a minha conta à ordem por 10 mil euros, e registar que eu fico a dever ao banco igual importância de 10 mil euros (mais os jurozinhos da ordem, claro).

Donde é que vieram os 10 mil euros que o sr. Saraiva depositou na minha conta à ordem? De lado nenhum. Isto faz algum sentido? De acordo com o nosso senso comum, não parece.

Mas é isto precisamente que acontece, e é isto a base do negócio de todos os bancos, da Picheleira a Wall Street, na sua importante e imprescindível função de financiamento da economia e das famílias.

A facilidade, com que os bancos criam dinheiro a partir do nada, explica em parte o comportamento dos banqueiros que se metem a fazer empréstimos de muitos milhões (é só preencher uns impressos) com poucas, ou nenhuma hipótese de alguma vez virem a ser pagos (nalguns casos tratando-se mesmo de puros e simples desvios de dinheiro).

Negócios ruinosos, e criminosas falcatruas, são registadas nos livros dos bancos como operações normalíssimas que, rendendo alguns juros, transmitem para o exterior e para os benditos reguladores, a ilusão dum negócio próspero e lucrativo, que paga dividendos atractivos aos accionistas e vencimentos e bónus milionários aos administradores.

O que não dá mesmo para entender, não por ser complicado mas por ser inaceitável, é que uma função chave para o regular funcionamento da economia e para o desenvolvimento do país, como a desempenhada pelo sistema financeiro, possa ser deixada nas mãos de privados que a usam e abusam para prosseguir os seus interesses egoístas, e que mesmo se houvesse fiscalização arranjariam sempre maneira de furar as regras e deixarem-nos estes presentes de Natal de milhares de milhões, como é agora o caso do Banif.

Depois para haver dinheiro para tapar os buracos de milhares de milhões criados pela irresponsabilidade e falcatruas de negócios privados (com vantagens e prerrogativas que mais ninguém sequer sonha ter) os governos têm-se endividado, e nós temos sido massacrados com aumentos de impostos, sobretaxas, congelamentos e cortes nos salários e nas pensões, degradação dos serviços públicos, numa espiral de empobrecimento, desemprego, emigração, sem fim à vista.

Por isso quando ouvimos agora a justa indignação de tanta gente contra as falcatruas e encobrimentos ocorridos no Banif, convém também lembrar o crime de lesa pátria que constituiu a privatização da Banca, que até agora já custou (para além do mais) cerca de VINTE MIL MILHÕES aos contribuintes.

Por tudo isto é urgente colocar na ordem do dia a discussão de que o dinheiro é um bem publico (como a água ou a energia), que este poder de criar dinheiro e decidir onde ele é aplicado (muitas vezes apenas na prossecução de objectivos especulativos e de pilhagem) não pode continuar na mão de privados que o usam e abusam de forma socialmente irresponsável e criminosa, e daí a necessidade e urgência do controlo público do sistema financeiro e da nacionalização dos bancos, e da sua colocação ao serviço da economia, dos trabalhadores, e do Povo.


ADENDA
Um outro aspecto do dia a dia da nossa relação com os bancos de que a maioria das pessoas não se apercebe, nem das eventuais consequências, é que quando depositamos dinheiro num banco, o dinheiro passa a pertencer ao banco, sendo simultaneamente criada uma divida do banco ao cliente (depositante) pelo mesmo valor. A partir do acto de depósito o banco passa a dispor desse dinheiro, que então lhe pertence, para os fins que entender.