terça-feira, 11 de agosto de 2015

A ARTE DE BEM PREVENIR INCÊNDIOS, SEGUNDO OS MAIS RECENTES GOVERNOS DA PÁTRIA.


Penso que foi ainda no tempo de Guterres que o governo decidiu dar télélés aos pastores para, entre o apascentar das ovelhas e as aparições no memorável anúncio da Telecel http://bit.ly/1guITTl , usarem o então novel aparelho para comunicar de que lado soprava o fogo.

Uns anos depois, aí por altura do PEC III de Sócrates, e quando já não havia cão nem gato que não tivesse telemóvel, foi a vez das 150 000 cabras, que sob o alto patrocínio dos governos de Portugal e de Espanha, se iriam dedicar à meritória tarefa de prevenir incêndios.

Agora, na era Passos & Portas, quando se fala em recorrer à espécie asinina para o desígnio pátrio de combate aos incêndios, só espero que não haja descriminação inter pares e que além do burro mirandês se mobilizem os burros de todo o país, nomeadamente os que, em São Bento e Belém, mas não só, mais não fazem que estar abancados à manjedoura e enfadadamente ir abanando a cauda para enxotar as moscas.

FB 11/8

sábado, 8 de agosto de 2015

SALSA, MANJERICÃO, E O QUE SERIA DOS GREGOS SEM OS PERITOS DA TROIKA.


Sem os peritos da Troika como é que, por exemplo, os pobres dos gregos iam conseguir determinar qual o IVA a aplicar à salsa e ao manjericão? E quem diz os gregos, diz os portugueses, ou mesmo os espanhóis e italianos.

É evidente que nem o Varoufakis nem o Tsakalotos, nem o Medina Carreira nem o César da Neves, dispõem de ciência bastante para concluir, sem margem para duvida ou contestação, qual o escalão correcto do IVA a aplicar a cada um daqueles apreciados herbáceos.

Para além da incontornável dificuldade que teriam a optar entre os 13% e os 23%, decerto seriam incapazes de atinar com as implicações fiscais das diferenças de aroma, sabor e textura entre a salsa e o manjericão, o que teria as mais funestas consequências no controlo do défice e pagamento da Divida, podendo mesmo comprometer irremediavelmente a imprescindível recapitalização da banca grega.

Afortunadamente nestas encruzilhadas da vida os povos do sul não estão sós, entregues à sua atávica e proverbial ignorância, derivado do que podem sempre contar com a elevada sapiência e abundante experiência dos peritos da CE, do BCE e do FMI, que duma forma cientifica e com bué de rigor, concluíram que, para que tudo corra dentro dos conformes do Memorando e a Grécia possa ser resgatada ao radicalismo do Syriza, o IVA a aplicar vai ser 13% à salsa, e 23% ao manjericão.


(Tudo explicadinho, aqui: V.A.T. absurdity in Greece: Why has Parsley 13% and Basil 23%?)

terça-feira, 7 de julho de 2015

DECLARAÇÃO DE VOTO OXI, NUM REFERENDO MUITO POUCO E MUITO TARDE


Hoje (5/7) na Grécia votava OXI, votava NÃO. Mas um NÃO com Declaração de Voto, de protesto contra este Referendo muito pouco e muito tarde.

Um Referendo muito tarde por o governo grego andar cinco meses enrolado com as "instituições", semeando a ilusão da eminência dum acordo favorável, que sabia melhor que ninguém que nunca iria chegar. Muito tarde por ao ficar obcecado e paralisado com as "negociações" em Berlim e Bruxelas ter negligenciado e adiado a aplicação do seu próprio programa, mesmo em aspectos que não tinham grandes impactos financeiros.

Muito tarde por o governo do Syriza ter assistido passivamente durante 5 meses à fuga do dinheiro da Grécia e só ter agido depois dos cofres estarem vazios. Muito tarde por ter continuado a sangrar-se em vida, fazendo pagamentos da Divida, em vez de dizer aos credores que fizessem um acerto de contas com os 7 000 Milhões que a Grécia tinha a receber da Troika.

Um Referendo muito pouco com apenas uma pergunta sobre a Proposta Ultimato da Troika, e que não permite aos gregos pronunciar-se sobre a Proposta apresentada pelo Syriza à Troika, quase tão má como a Proposta Ultimato (a Proposta da Troika traduz-se em cortes de 8 300 Milhões de Euros; a Proposta do governo Syriza anda à volta dos 7 000 Milhões). Não é com propostas destas, da Troika ou do governo Syriza, que se põe fim à Austeridade ou se inverte o rumo de empobrecimento e declínio da Grécia.

Muito pouco por passar ao lado da questão fundamental que se coloca à Grécia (tal como a Portugal e a todos os países condenados à Austeridade): Com esta UE, com este Euro, estamos todos condenados à continuação do declínio e da miséria com que o neo liberalismo triunfante está a destruir a Europa.

Mas hoje na Grécia votava OXI, votava NÃO, com a certeza de que, apesar de tudo, esse é o melhor voto para a continuação da luta dos trabalhadores e do Povo, na Grécia, e em muitos outros países.

O GATO DE SCHRODINGER, E AS INTERMITÊNCIAS DA VIDA DO EUROGRUPO


Recorrendo a uma complicada equação matemática o físico e Prémio Nobel Erwin Schrodinger conseguiu provar que o seu gato, previamente colocado dentro duma caixa, se podia encontrar num estado de sobreposição de vida, ou seja tanto podia estar morto, como estar vivo, dependendo isso de quem olhasse para dentro da caixa (não me peçam para explicar, que para dizer a verdade também não acredito muito nisto ;) ).

O caso é que o talvez falecido gato de Schrodinger mudou-se para Bruxelas e reencarnou numa coisa chamada EuroGrupo, que todos pensávamos ser um Órgão da UE, em que TODOS os ministros das Finanças da zona Euro tinham assento, mas que afinal tem dias.

Conforme tiveram a amabilidade de nos explicar há pouco mais duma semana, o EuroGrupo não passa de "um grupo informal", e que cabe ao Relvas holandês (presidente em funções da dita coisa) decidir quem participa ou não nas suas reuniões (pelo menos foi a desculpa que deram para não deixar Varoufakis participar na reunião do EuroGrupo dos 19-1=18, de 27/6).

Ora passada pouco mais de uma semana vejo agora ali na TV um gajo da Comissão Europeia a dizer que qualquer proposta sobre a Grécia a ser submetida ao Conselho Europeu terá de ser antes obrigatoriamente aprovada pelo EuroGrupo (com 19 ou com 19-1=18, se perguntar não ofende?).

EuroGrupo que tal como o gato de Schrodinger, que tanto pode estar vivo como morto, também tanto pode ser um dia um "grupo informal", como noutro dia qualquer um Órgão da UE com poder para tomar decisões vinculativas, e que agora, para nossa informação, está de novo vivo e de excelente saúde pronto para moer o juízo ao sucessor de Varoufakis.

quarta-feira, 1 de julho de 2015

ALGUÉM QUE FALE GREGO, FAZIA-ME A FINEZA DE TELEFONAR PARA O KKE

E explicar aos camaradas dirigentes que estão a arrastar(*) o honrado Partido Comunista Grego provavelmente para a maior burrada da sua longa e heróica existência?

É que aquela rábula do pretenso boletim de voto KKE com duas perguntas (na foto) francamente, não lembrava ao diabo. Apelar ao voto NULO no Referendo do próximo domingo, que é o que o KKE está a fazer, é de facto um erro de proporções "homéricas", com consequências dramáticas para o KKE e trágicas para a luta dos trabalhadores e do povo Grego.

Dir-me-ão, e eu concordo, que tem o KKE toda a razão em defender que o que devia ser referendado era não apenas a Proposta-Ultimato da Troika, mas igualmente a Proposta-Cedência do Syriza, quase tão nefastas uma como a outra e indubitavelmente dentro da mesma linha austeritária e anti desenvolvimento.

Aliás a rocambolesca saga das propostas e contra propostas, em que Tsipras e Varoufakis são exímios, e em que continuam envolvidos mesmo depois da decisão do Referendo, só confirmam muito do que o KKE tem dito sobre o Syriza e a sua politica de capitulação. A quatro dias de distância não é sequer claro se no domingo vai ou não haver Referendo.

Defender no Parlamento as duas perguntas e votar contra a proposta do Syriza de apenas uma pergunta, sabendo à partida que a aprovação da realização do Referendo estava assegurada, tudo bem, é normal e aceitável em termos de luta politica partidária.

É uma forma de levar aos votantes a posição do KKE (de que os eleitores deviam ter o direito de votar as duas propostas) e de realçar que o NÃO à Proposta-Ultimato da Troika, não pode ser em caso algum, como o Syiriza está a tentar, considerada uma aprovação à Proposta-Cedência do governo.

Como todos sabemos a politica não é tomar decisões em função daquilo que gostaríamos que fosse (as duas perguntas), mas decidir sobre aquilo que realmente é, e neste caso o que é, como resultado da votação no Parlamento, é um Referendo com apenas uma pergunta.

A partir daí o KKE devia ter afirmado claramente a posição de voto NÃO, podendo desenvolver toda a sua campanha na base de que quem vota contra a Proposta-Ultimato da Troika está também obviamente contra a Proposta-Cedência do Syriza, até por ambas no fundo serem tão parecidas.

Desse modo, e colocando-se claramente no campo Anti Austeridade e contra o Diktat da Troika, o KKE teria melhores condições de ser ouvido pelo lado maioritário dos que vão votar NÃO (segundo uma sondagem 55% pelo NÃO, contra 33% pelo SIM), sem abandonar ou trair a confiança dos que defendem, tal como o KKE, que o voto devia incidir sobre as duas propostas.

Assim o voto no NÃO não seria automaticamente um voto de confiança ao Syriza (o que acontecerá se o KKE votar NULO), mas um voto mais abrangente e com maior capacidade de capitalizar o sentimento de revolta que este processo objectivamente está a agudizar, num contexto de unidade popular potenciador de novos avanços, muito para além dos cálculos manobristas de Tsipras e Varoufakis.

Ao contrário, defendendo o voto NULO, o KKE isola-se no campo popular, entrega o apoio maioritário do NÃO nas mãos do governo, e coloca-se objectivamente ao lado dos que querem sufocar e subjugar o povo, no que será condenado sem apelo nem agravo pela maioria dos gregos, especialmente se o voto NULO do KKE contribuir para a vitória do SIM.

Claro que o suicídio, incluindo o politico, não é crime, mas as consequências deste harakiri publico para que esta posição irresponsável e sectária está a arrastar o KKE, são absolutamente criminosas e, por todas as razões, incluindo a simpatia e solidariedade com os comunistas gregos, não pode ter a nossa conivência e deve ser combatida com toda a clareza.


(*)
Se de facto a tradução é fiel e o que lemos é mesmo a posição de voto NULO no Referendo de domingo.

(**)
Diz-se que Álvaro Cunhal, nas presidenciais de 1986, aconselhou os mais reticentes que se fosse preciso, no boletim de voto,  tapassem a cara de  Soares e fizessem a cruz por ele. (conforme recorda Vitor Dias).
Formas de o KKE reafirmar a sua posição, mesmo votando NÃO no Referendo, é coisa que certamente não será dificil de encontrar.

"LOURES EM CONGRESSO": OPINIÃO DUM MUNÍCIPE


Dum munícipe interessado no que se passa na terra onde vive e que, embora não tendo participado em nenhuma das iniciativas do "Loures em Congresso", acompanhou com interesse esta original, importante e oportuna iniciativa da Câmara de Loures.

Oportuna por, depois de 12 anos duma gestão autárquica PS marcada pela incompetência, clientelismo e cedência a interesses lesivos do município e dos munícipes, ser um contributo crucial para inverter a rota de degradação das estruturas camarárias e do generalizado declínio do concelho de Loures.

Original numa escolha que, rejeitando o tradicinal todos numa sala a ler comunicações (umas talvez interessantes, a maioria decerto enfadonhas), preferiu para cada iniciativa escolher, em vez do modelo único, o formato mais adequado à questão que se pretendia conhecer melhor, discutir, e eventualmente chegar a uma conclusão.

Importante porque para além da incontornável e prioritária dimensão politica das questões em que a Câmara intervém, há igualmente para a maioria delas, em maior ou menor grau, a necessidade dum conhecimento técnico detalhado das matérias e das opções concretas que se colocam a quem tem de tomar as decisões.

Juntar à volta de cada questão concreta, e da forma mais adequada ao assunto, para além do Executivo, os técnicos e outros funcionários da Câmara que com elas lidam, os autarcas e activistas de base que as sentem junto das populações, especialistas das matéria e pessoas com outras experiências relevantes, e mesmo nalguns casos os munícipes directamente interessados, foi de facto um achado dos organizadores do "Loures em Congresso", que deve servir de exemplo não só a outras autarquias, mas a outras organizações e instituições empenhadas em melhorar a qualidade da sua intervenção junto das populações.

Muito se fala na Crise da Democracia, e muitas ilusões se criam à volta de formas de intervenção que por vezes se limitam a juntar meia dúzia de desiludidos de partidos em moldes que se esgotam no artificial impacto mediático; e injustamente pouco se valorizam iniciativas como o "Loures em Congresso" que é também um exemplo de como se pode ir além desta democracia de faz de conta em que se afunda a chamada "Europa".

Mas apesar dos muitos méritos do "Loures em Congresso" é de ter em conta que, embora com algumas iniciativas abertas a todos, este foi basicamente um "Congresso da Câmara" e não um "Congresso dos Munícipes". E não se veja nisto nada de depreciativo, antes pelo contrário, duvido muito que fosse possível juntar numa iniciativa única os dois "Congressos", e a começar por algum lado a prioridade era inquestionavelmente este "Congresso da Câmara".

Claro que nem tudo terá sido perfeito, e os organizadores e participantes decerto irão analisar o que correu mais ou menos bem. Da minha parte apenas gostaria de referir aquilo que me pareceu uma falha de palmatória, o não ter a organização do "Loures em Congresso" a preocupação, ou talvez os meios, de ir dando noticia aos munícipes do que ia acontecendo em cada iniciativa, da caracterização das matéria nelas tratadas, das opiniões em confronto, e das eventuais conclusões.

Mas a minha critica principal vai para os munícipes do concelho que não estiveram à altura desta iniciativa da Câmara, e onde, por exemplo, no reduzido espaço publico que ainda nos resta (jornais locais, redes sociais, blogs e FB, à mesa do café) se manteve o pesado silêncio sobre as coisas da nossa terra, que nem o "Loures em Congresso" conseguiu espevitar.

Foi de facto confrangedor ver como, a este nível, os munícipes do concelho, apesar da simpatia e apoio por alguns manifestado, passaram ao lado destes 100 dias de "Loures em Congresso", não aproveitando o grande debate lançado pela Câmara para virem para o espaço publico discutir as questões concretas da sua terra ou falar da sua visão para o futuro do simpático concelho de Loures.

sexta-feira, 19 de junho de 2015

MORRER INCÓGNITO NA VALORSUL?


Faz hoje uma semana que partilhei no Facebbok uma noticia da FIEQUIMETAL  que dava conta da morte dum trabalhador na Valorsul.

Sabem, da Valorsul aqui a meia dúzia de quilómetros donde muito de nós moramos? Da Valorsul que trata o lixo que fazemos diariamente em Loures e noutros concelhos da área de Lisboa? Da Valorsul de que, através das Câmaras da região e do Estado, até somos accionistas?

Pensei na altura que a noticia do sindicato iria gerar já não digo uma onda, mas ao menos alguma simpatia e solidariedade; pensei que a Valorsul ou a Câmara de Loures iriam emitir um comunicado a lamentar a morte e a solidarizar-se com a família enlutada; pensei que seria anunciado um Inquérito rigoroso e independente para que, na eventualidade da morte do trabalhador ter sido provocada por alguma falha evitável, tentar que tal não volte a repetir-se no futuro.

Como se diz no comunicado da Fiequimetal "morrer a trabalhar é intolerável e não pode ser encarado como natural".

Talvez a comunicação social até tenha dado noticia do infausto acidente, talvez os meus amigos do FB tenham ficado chocados e manifestado a sua solidariedade, talvez a Valorsul, ou a Câmara, tenham tomado posições publicas, talvez tudo isso e muito mais tenha acontecido, e seja apenas eu que não dei por nada.

Aliás para ser franco, perante este pesado silêncio, o que eu gostava mesmo é que tivesse havido por aqui um qualquer mal entendido e que afinal nenhum trabalhador precário tivesse morrido na semana passada ao serviço da Valorsul, ao serviço de muitos de nós.

terça-feira, 16 de junho de 2015

CIGANOS NÃO CABEM NO "LOURES LIVRE DE RUMORES"


Pelo que leio no suplemento dedicado ao Projecto "Loures Livres de Rumores" trata-se duma iniciativa louvável e oportuna, um Projecto para identificar e combater os principais estereótipos e preconceitos que se mantêm em torno de imigrantes e minorias étnicas.

Enquanto em Portugal, e duma maneira geral, os imigrantes encontram junto das populações de acolhimento uma boa receptividade, já no que se refere aos ciganos, apesar de há cerca de cinco séculos viverem entre nós, continuam a ser a minoria mais descriminada e sujeita ao tipo de estereótipos e preconceitos que aquele Projecto visa combater.

No entanto, embora quer no suplemento quer na Página do FB deste Projecto, veja referências concretas a diversas comunidades imigrantes que vivem no concelho, não descortino qualquer referência a ciganos (palavra que nem sequer aparece quer no suplemento quer nos posts do Facebook), o que, sendo pena, provavelmente se deve apenas ao facto de o "Loures Livre de Rumores" ser um projecto financiado pela UE dirigido a imigrantes.

Estando agora a Câmara de Loures, na sequência do Projecto "Loures sem Rumores", a preparar um "Plano Municipal para a Integração de Imigrantes", seria bom que o seu âmbito fosse alargado às Minorias, com particular atenção para a tão mal resolvida "questão cigana", comunidade que apesar de pequena (estima-se em 50 mil o numero de ciganos a nível nacional) tem uma expressão com algum significado no concelho de Loures.

quinta-feira, 28 de maio de 2015

AS MINHAS DIFICULDADES COM OS HISTORIADORES DO PREC


Ao principio pensava que era só eu que tinha dificuldades com os historiadores (do reaccionário Rui Ramos à progressista Raquel Varela) que em Portugal fazem a história do que foi o 25 de Abril e o período revolucionário conhecido como PREC.

E o meu problema, que afinal é comum a outras pessoas, é que aquilo que os nossos historiadores profissionais nos contam sobre a Revolução dos Cravos em muitos casos não coincide, nem de perto nem de longe, com aquilo que foi a minha experiência directa e vivida desses saudosos mas não esquecidos tempos.

Hoje, 28/5, no Colóquio da SPA, mais uma vez constatei o fosso que por vezes separa o que dizem e escrevem os historiadores, certamente baseado nas fontes a que têm acesso, e o que se passou na realidade.

Dum lado Raquel Varela, baseada nas fontes escritas, nomeadamente em documentos diplomáticos dessa época já tornados públicos pelos USA, afirma que a super potência foi apanhada de surpresa pelos eventos do 25 de Abril.

Do outro lado Manuel Duran Clemente garante que a embaixada em Lisboa dos USA foi avisada com antecedência do 25 de Abril, por alguém que por naturais razões de discrição não referiu publicamente (mas que muitas das pessoas que viveram aqueles tempos não terão dificuldade em imaginar quem foi).

Sempre ouvi dizer que era preciso deixar passar algum tempo para se fazer a História do passado mais recente, ideia com que concordo inteiramente.

Será de facto mais avisado para os historiadores, antes de começarem a contar a sua versão do que se terá passado, baseada em fontes irrefutáveis, tratadas de forma rigorosa e cientifica, aguardarem prudentemente que os protagonistas dessa História estejam todos, conveniente e devidamente, mortos e enterrados.


Adenda
Publicado no Facebook onde se seguiu uma animada troca de comentários que vale a pena ver, AQUI.

segunda-feira, 25 de maio de 2015

HO CHI MINH: COLONIALISMO E O PAPEL DOS PARTIDOS COMUNISTAS EUROPEUS


"Quanto aos partidos comunistas da Grã-Bretanha, Holanda, Bélgica e outros países (colonialistas) - o que fizeram para lidar com as invasões coloniais perpetrados pela burguesia dos seus países?

O que fizeram desde o dia em que aceitaram o programa político (do partido comunista) de Lenin para educar a classe trabalhadora de seus países no espírito do internacionalismo e em estreito contacto com as massas trabalhadoras nas colónias?

O que estes Partidos têm feito neste domínio é quase inútil. Quanto a mim, eu nasci numa colónia francesa, e sou um membro do Partido Comunista Francês, e estou muito triste de dizer que o nosso Partido Comunista tem feito quase nada para as colónias. "

Ho Chi Minh

Ao contrário de outros partidos comunistas das metrópoles coloniais, o Partido Comunista Português foi provavelmente o único que assumiu por inteiro os seus deveres internacionalistas, que se colocou ao lado dos povos que nas colónias lutavam contra o colonialismo português, e que contribuiu decisivamente com a sua luta para a independência da Guiné, Cabo Verde, Angola, São Tomé, Moçambique e Timor.

(Leio no Facebook que na RTP1 está a dar, 25/5, um programa com respeitados lutadores pela independência de ex-colónias portuguesas, sem um único representante do PCP)


segunda-feira, 11 de maio de 2015

NOS PAÇOS DO CONCELHO DE LOURES, FOI ASSIM



Esta é uma foto emblemática do 25 de Abril. Cena da sede da Pide que, no mês de Maio de 1974, se repetiu em milhares de edifícios públicos, limpando para sempre das paredes a escória fascista que as conspurcou por quase meio século. Nos Paços do Concelho de Loures as coisas passaram-se como vou contar.

Num fim de tarde de Maio de 1974, ao passar pela livraria do José Gouveia, em Moscavide, ele tinha novidades. Tinha nesse dia recebido do MFA um documento que o nomeava Presidente da Cãmara de Loures, juntamente com as chaves do edifício dos Paços do Concelho.

O José Gouveia tinha sido proposto e apoiado por aclamação para presidir à Câmara de Loures, num comício realizado na manhã do dia 1º de Maio de 1974 no campo do Desportivo dos Olivais e Moscavide, e posteriormente aprovado em reuniões de democratas de outras localidades do concelho. No mesmo comício eu tinha sido também indicado para integrar a vereação mas (Deus seja louvado) a minha carreira de autarca terminou antes de começar.

De maneira que, e voltando àquela tarde de meados de Maio de 1974, fechada a livraria às 19h, decidimos ir os dois a Loures ver se a chave servia na porta. O edifício dos Paços do Concelho estava fechado e deserto, nesses tempos nem sequer segurança havia, por ali andámos a dar uma olhada àquele ex antro do fascismo e, inevitavelmente, ao passarmos pelo gabinete do presidente, imitando o soldado da foto, subi para uma cadeira e apeei da parede o retrato do Tomaz.

Quando no dia seguinte à noite encontro o José Gouveia e lhe pergunto como iam as coisas na Câmara, ele dá uma gargalhada e responde: Sabes lá, hoje de manhã voltei à Câmara e depois de me apresentar aos funcionários, entro no gabinete do presidente, e não é que lá estava de novo, pendurado na parede, de frente a olhar para mim, o Cabeça de Vaca.

FB 11/5

HOJE SOU SYRIZA


Nas grande movimentações populares, como foi a caso das ultimas eleições gregas, as minhas simpatias sempre estiveram, sempre estão, do lado dos sonhos e aspirações dos trabalhadores e do Povo.

Mesmo sendo por demais evidentes as limitações do Programa do Syriza que, como a vida está a demonstrar, resultam duma análise errada da natureza da UE e do Euro, alegrei-me com a sua vitória, e tenho sofrido com os seus desaires.

Provavelmente esta semana vai ser uma semana decisiva para os Gregos, mas independentemente do que se passou até agora, e do que venha a acontecer, hoje (11/5), com a readmissão pelo governo grego das 595 empregadas de limpeza que durante 20 meses lutaram à porta do seu ministério contra mais um desumano despedimento, hoje sou inequivocamente Syriza.
http://bit.ly/1PeX7Y8

No FB em 11/5/2015

segunda-feira, 4 de maio de 2015

Sacavém, Cidade a sério ?!...



Nado e criado em Sacavém, foi na Vila de então, Cidade agora, que vivi com toda a intensidade a Revolução de 25 de Abril de 1974, o seu desenvolvimento e retrocesso. Tenho viva a memória da imensa esperança, da pujante vontade, de uma maioria de sacavenenses, pugnando por uma vida melhor para todos e pelo progresso da sua terra.
E Abril, trouxe uma das mais sólidas e vibrantes alterações no país. O poder local democrático, que viabilizou um vasto conjunto de transformações de nível local, que se repercutiram muito positiva e globalmente no país. Em Sacavém, também assim foi. As transformações ensejadas e concretizadas no território, na vida colectiva e nas condições de vida dos sacavenenses, abriram imensas expectativas e oportunidades.
 
Entretanto, muito se esboroou, muito se desperdiçou, muito se abandonou, mercê das políticas governamentais e inécia autárquica. Hoje, a minha Cidade, é uma terra deprimida, a passar por dificuldades inimagináveis há 40 anos atrás e muito depois disso.
 
Os fugazes lampejos que subsistem aqui ou ali, de pessoas e instituições, ora resistindo, ora contrariando, o actual caminho de decadência, são forças sem recursos, impulso e ânimo para se conjugarem, agirem conjuntamente e retomarem um rumo de regeneração, revivificação e redinamização da Cidade.
 
É certo que os executivos municipais liderados por Severiano Falcão, Demétrio Alves e Adão Barata procuraram, ao tempo, inverter o curso dos acontecimentos, com o Plano de Salvaguarda de Sacavém, com o PROCOM, com a resolução da chaga da Quinta do Mocho, com o Museu da Cerâmica e outras acções qualificadoras, mas remaram sózinhos contra a maré de retrocesso.
 
Hoje o problema está maior, mais vasto, mais denso. São precisas soluções audazes, inovadoras, determinadas e mobilizadoras. Sacavém, bem merecia (e precisava) ter um espaço próprio no Loures em Congresso, para que fosse discutida a Cidade e, sobretudo o seu futuro. Mas ainda que não o seja nesta ocasião, é indispensável que o seja num futuro próximo.
 
É isso mesmo que aqui proponho à actual Administração Municipal, que está a chegar a meio do seu mandato e, que estando sujeita a constrangimentos económico-financeiros muito substanciais que lhe permita uma intervenção robusta no imediato, deve aproveitar – penso eu – para na segunda metade do presente ciclo autárquico, lançar a reflexão e o estudo das oportunidades para a Cidade, o que é preciso fazer e o que é possível começar a fazer, designadamente, o rumo a seguir no próximo mandato. Sacavém não suporta muito mais depois disso.
 
E aos sacavenenses, caberá “dar alguma coisa para o peditório”. Desde logo, nas próximas eleições legislativas, optarem entre mais austeridade e mais depressão ou ajudarem o país e os governos a mudarem de registo. Depois, participando, dando opinião, informando-se, debatendo. Que esperar se nós próprios nada quisermos fazer por nós e pela nossa terra ?


publicado na edição 13, Maio de 2015, de Notícias de Loures

sexta-feira, 1 de maio de 2015

1º DE MAIO DE 1966, NO ROSSIO


Era domingo, estava um grupo de amigos no café, em Moscavide, a beber a bica depois do almoço, quando alguém se lembrou, porque é que não vamos ao Rossio? Ao Rossio, claro, onde noutro 1º de Maio, quatro anos antes, em 1962, tinha tido lugar uma grande manifestação anti fascista com centenas de presos, feridos, e um morto. Ver aqui (evocação do Avante em 2012) e aqui (extractos da noticia do Diário de Noticias de 3 de Maio de 1962).

Para o 1º de Maio de 1966 não tinha sido convocada nenhuma manif, mas porque não ir até lá? Talvez outros tivessem a mesma ideia, e mesmo que mais ninguém fosse, caraças, íamos nós. E fomos todos, encontrámos o João Vital, de Oeiras, que já por lá andava, e o José Fonseca fotógrafo à la minuta, amigo do Custódio, que no intervalo da sua actividade profissional de tirar o retrato a putos a dar milho aos pombos, e ao saber ao que íamos, fez questão de tirar esta foto para a posteridade.

Daquele pequeno grupo (quatro operários, dois empregados e dois estudantes) já o Alexandre e a Zé tinham sido expulsos da universidade na sequência das lutas estudantis de 1964, e o Custódio tinha passado meia dúzia de meses em Caxias. Dois anos depois o Madeira, para evitar a prisão iminente, fugia para França. Em 1969, foi a vez do Alexandre e da Zé darem o salto, depois de terem escapado por um triz à pide que foi a casa tentar prendê-los. Outros tiveram pior sorte, até ao 25 de Abril ainda iriam passar por Caxias o Ramiro e eu.

Fui à procura da foto depois de um dia destes numa manif, em conversa com uns amigos sobre a unidade de esquerda, o Ramiro recordar a fuga do Alexandre e da Zé, militantes do MRPP (na altura dum comité ML que esteve na origem do MRPP), que até conseguirem sair do país passaram uns meses escondidos em casas de amigos militantes do PCP e da ARA, rumando depois para Paris onde são recebidos por outro militante do PCP, tudo passado com pessoal que está nesta foto. Depois vão viver para Bruxelas onde mais tarde acolhem outro refugiado politico de Moscavide e militante do PCP.


Na foto, de pé Ramiro Morgado, Maria Emília Morgado, Armando Madeira, Alexandre Gaspar, Maria José Belmute, e João Vital. Sentados: António Manuel Bessa, J Eduardo Brissos, Custódio Santos, e Luísa Ferreira (mais tarde Brissos).

segunda-feira, 20 de abril de 2015

LOURES EM CONGRESSO: MANIFESTO CONTRA (QUASE TODAS) AS CICLOVIAS


Uma grande vantagem, e encanto, de andar de bicicleta é a liberdade de, dentro de óbvias limitações, escolhermos o percurso que mais nos agrada ou convém, quer no "uso quotidiano", para irmos para o trabalho, a escola, às compras, ou encontrarmo-nos com amigos, quer no "uso recreativo" quando a bicicleta é a nossa companheira de agradáveis passeios. Por isso é com grande relutância que encaro a recente moda de construção de ciclovias, a que aderem cada vez mais autarcas ansiosos de apresentarem, entre a sua prolífica "Obra Feita", mais uns quantos Kms de ciclovia.

Claro que há casos em que a ciclovia é o único meio seguro, ou até possível, de permitir o uso da bicicleta, e aí são as ciclovias muito bem vindas. Já quando as ciclovias se destinam a impor caminhos aos ciclistas, a encarneirá-los num percurso decidido por um qualquer burocrata da mobilidade, ou vendedor de ciclovias, os resultados são quase sempre rísiveis, como acontece com a "ciclovia do Teixeira", no meio dum passeio imagine-se, ali na Avenida da Índia em Sacavém, onde até hoje não vi ainda circular uma única bicicleta. Isto já para não falar do dinheiro esbanjado nestes pequenos "elefantes brancos".

Leio agora no jornal de Moscavide e Portela, com alguma surpresa (nunca tinha ouvido falar nisso), haver no concelho de Loures "aprovada uma rede com 217 km de percursos cicláveis", provavelmente uma boa parte em ciclovia, pois diz também o jornal, em titulo, que a tal rede inclui a "criação de uma ciclovia entre Sacavém, Portela e Moscavide". O que até podia ser uma boa ideia se em Sacavém, na Portela e em Moscavide, houvesse, o que não é o caso, ciclistas de "uso quotidiano" que com a construção dessa ciclovia vissem facilitada a circulação entre estas localidades.

O que há no entanto nesta zona do concelho são ciclistas de "uso recreativo", ciclistas de fim de semana, utilizadores habituais da parte ribeirinha da Expo que é provavelmente a zona mais frequentada por ciclistas de recreio de toda a região de Lisboa, e onde, tomem bem nota, não existe NENHUMA ciclovia. O que mostra bem que criar condições para o uso da bicicleta não passa sempre, passa até muito pouco, pela construção de ciclovias.

O mesmo se aplica ao "uso quotidiano" da bicicleta, onde um dos requisitos básicos é a flexibilidade dos percursos, que permitam usar o caminho mais curto para ir de A a B. Por exemplo aqui na Portela para o "uso quotidiano" da bicicleta (que não existe mas que seria positivo promover) optar pelas ciclovias seria ou construir uma ou duas ciclovias, o que era insuficiente, ou fazer uma ciclovia em cada rua, o que seria absurdo.

Mas há uma alternativa melhor. Dizem os especialistas, e a experiência comprova, que para um limite de velocidade de 30 km/h é seguro ter bicicletas a circular misturadas com o tráfego normal, possibilidade que as novas disposições de protecção ao ciclista do Código da Estrada veio reforçar. Ora aqui na Portela (e creio que noutras localidades do concelho de Loures) o limite de velocidade é já hoje de 40 km/h, pelo que bastaria reduzir 10km/h ao limite de velocidade para resolver, sem ciclovias e com poucos custos, o problema do "uso quotidiano" da bicicleta.

Voltando à anunciada ciclovia a ligar Sacavém, Portela e Moscavide, que não se percebe para que serviria, dado não existirem por aqui ciclistas de "uso quotidiano", melhor seria dar prioridade aos ciclistas que de facto existem, os de "uso recreativo", que aos fins de semana vão dar umas pedaladas para o Parque das Nações, e que gostariam de ver melhorada a segurança dos percursos que ligam os lugares de residência à zona ribeirinha. Percursos onde existem diversos "pontos negros" que, a não serem resolvidos, mais dia menos dia ainda podem vir a provocar acidentes graves.

Faço por isso votos que, para além da rede de percursos cicláveis do concelho, se estudem e concretizem medidas que facilitem o uso mais alargado e flexível da bicicleta como meio de mobilidade e de recreio, que levem em conta as condições concretas de cada localidade e respeitem as palavras de Bernardino Soares quando afirma pretender a Câmara de Loures "uma abordagem a novas práticas de mobilidade, mais suaves e alternativas" o que, no que se refere à bicicleta, deverá dar especial ênfase às questões da segurança dos ciclistas, aproveitar e rentabilizar infra estruturas existentes, e não insistir na construção de ciclovias que custam dinheiro e que ninguém usa.

Adenda:
O que a noticia do jornal fala é de 217 km de "percursos cicláveis" que se bem entendo é uma designação genérica que incluirá:
a) as pistas cicláveis propriamente ditas (do tipo e com aquele material da "pista do Teixeira" ver foto);
b) outros tipos de percurso, como por exemplo uma estrada ou rua já existente onde se pintam umas bicicletas no chão e se põem uns sinais verticais,
c) ou simples trilhos de terra batida, como aquele à beira do Trancão que começa em Sacavém e vai pela Várzea adentro.

Obviamente a relutância aqui revelada às ciclovias que só servem para "mostrar obra" (tipo "ciclovia do Teixeira" que se vê na foto) não é extensiva, antes pelo contrário, aos outros tipos de percursos cicláveis, que são geralmente boas soluções para a utilização de bicicletas, quer para "uso quotidiano" quer para "uso recreativo".