domingo, 8 de junho de 2014

COMO OS RICOS RESOLVEM O PROBLEMA DOS SEM ABRIGO.




"É um escândalo que alguém tenha de dormir na rua no século 21 na Grã-Bretanha. No entanto, ao longo dos últimos três anos o numero de pessoas que dorme na rua tem crescido abruptamente em todo o UK, e por uns impressionantes 75% em Londres. Por trás desses números estão pessoas reais que lutam com a falta de habitação, cortes de benefícios e cortes nos serviços de sem-abrigo para ajudá-los a reconstruir suas vidas." 
Katharine Sacks-Jones, directora da Campanha Crise.

Para os londrinos ricos, incomodados pelos sem abrigo que dormem à porta dos seus prédios, lojas ou parques, a solução é fácil, simples e barata.

quarta-feira, 4 de junho de 2014

O FIM DA NOVA ORDEM MUNDIAL, OU O FUTURO DA RUSSIA ESTÁ NA ÁSIA.


Com a implosão da União Soviética, os EUA aprofundam o projecto imperial, a Nova Ordem Mundial, NWO, para a qual tentam atrair, numa posição subalterna, os países do ex bloco do leste.

A NATO e a UE são instrumentos fundamentais dessa estratégia que, embora averbando alguns sucessos, nomeadamente entre os países bálticos e da Europa do leste, cedo se revela contraproducente em relação a um grande país como a Rússia, com ambições regionais próprias, e que não tarda a  aperceber-se do estatuto de semi colónia que a NWO lhe reserva.

Neste quadro, o que está a acontecer na Ucrânia não poderá ser surpresa para ninguém e, como um destacado politico e estratega, Christopher Hill, reconhece pode significar o começo do fim duma estratégia imperial, que da Rússia, à América Latina e China, encontra cada vez maior resistência. Parece-me pois valer a pena ler este artigo de Christopher Hill, The End of the New World Order, de que aqui deixo um pequeno extracto:

"A anexação da Crimeia pela Rússia, e a sua continuada intimidação à Ucrânia parece significar o fim de um período de 25 anos, cuja marca saliente foi um esforço para trazer a Rússia para um maior alinhamento com os objetivos e tradições euro-atlânticas.

Agora a pergunta é: O que é que se segue? ( ... ) A nova ordem mundial (NWO) manteve-se por quase 25 anos. Excepto para o breve período de guerra com a Geórgia, em Agosto de 2008 (um conflito geralmente visto como instigado pela imprudência da liderança georgiana), a aquiescência e compromisso da Rússia com a "Nova Ordem Mundial", embora problemático, foi uma das grandes realizações da era pós-Guerra Fria.

Mesmo a relutância da Rússia em apoiar a acção concertada do Ocidente, como na Bósnia e Kosovo na década de 1990, foi baseada em argumentos que podiam ser ouvidos noutros países europeus.

A democracia russa certamente teve sua quota parte de falhas, mas isso não a tornava única entre os países pós-comunistas . ( ... ) 
Os americanos precisam entender o desafio que enfrentam de uma Rússia que não parece mais interessada no que o Ocidente lhe tem vindo a oferecer nos últimos 25 anos: um estatuto especial com a NATO, uma relação privilegiada com a União Europeia, e uma parceria no esforço diplomático internacional."

Christopher R. Hill, ex-subsecretário de Estado dos EUA para a Ásia Oriental, foi embaixador dos EUA no Iraque, Coreia do Sul, Macedónia, Polónia, enviado especial dos EUA para o Kosovo, e negociador dos Acordos de Paz de Dayton. 


terça-feira, 3 de junho de 2014

As decisões do Tribunal Constitucional fazem lembrar os casos de violência doméstica.


O agressor apanha uma pequena repreensão dos juízes mas continua à solta e no aconchego do lar, enquanto a mulher, ou sujeita-se a mais do mesmo, ou tem que procurar refúgio noutras paragens.

terça-feira, 27 de maio de 2014

ELEIÇÕES PARA O PE NA PORTELA
Porque será que a maior subida da CDU no concelho de Loures foi na Portela?


É certo que os resultados da CDU nestas eleições foram muito bons a nível nacional, e melhores ainda no concelho de Loures, mas as subidas da CDU nalgumas das freguesias de Loures são mesmo espectaculares, como é o caso da freguesia de Loures com uma subida de 55,8%, ou da Portela ainda ligeiramente melhor: 56,7%.

Saber as razões para a subida de 57% da votação na CDU na Portela (6,7% dos votos em 2009 e 10,5% em 2014), é capaz de ser importante, até porque a votação de 2009 já tinha sido melhor do que a de 2004, e provavelmente a de 2004 melhor do que 1999.

De 2004 para 2014, em dez anos, a votação da CDU na Portela, para o PE, passou 6% para 10,5%, um crescimento de 75%. Crescimento efectivo que não teve a ver com o aumento da abstenção, que para o PE se manteve aqui à volta dos 52%, sendo aliás a deste ano, 51,2%, a mais baixa deste período.

Mas afinal o que é que faz crescer a votação da CDU na Portela?

Começando pelo mais simples podemos constatar que a subida deste ano não tem a ver com a campanha eleitoral, por aqui pouco expressiva e até mais fraca que a de 2009.

Não é também devido ao trabalho politico ou intervenção na vida do bairro dos membros locais do PCP, pois embora militantes respeitados, a sua intervenção a nível local é, quando muito, muitíssimo discreta.

Uma das razões poderá ter a ver com as alterações na composição social da Portela, que não corresponde já aquela imagem de há 30 ou 40 anos atrás, de gente maioritariamente privilegiada e conservadora. Muitos habitantes originais já aqui não moram, mudaram-se para outras bandas mais agradáveis ou entretanto faleceram, sendo que no geral foram substituídos por gente de trabalho, nomeadamente profissionais qualificados e empregados dos serviços.

Outra explicação que se poderá eventualmente juntar àquela pode estar relacionada com o facto de a Portela ser a freguesia do concelho de maior nível educacional, 44% de licenciados.

E a hipótese que aqui ponho, e que a concretizar-se poderia ter consequências interessantes a um nível mais geral é: Será que as pessoas com um maior nível de educação, profissionais qualificados, estão a começar a perceber melhor as causas da Crise e as consequências devastadores das politicas do Governo PSD/CDS? E será que algumas delas compreendem ainda que é o PCP a força politica mais consequente e empenhada numa inflexão deste rumo de desastre, e que por isso, ultrapassando preconceitos e receios, começam também a dar-lhe a confiança do seu voto?

Enfim, se os amigos têm uma explicação melhor, o que provavelmente não é difícil, para esta saborosa subida da votação da CDU na Portela, deixem por aqui um comentariozinho a dizer de vossa justiça.


ADENDA

Nos últimos 15 anos a Portela terá perdido cerca de 3 000 habitantes, a maioria do agora demolido bairro precário da Quinta da Vitória, de trabalhadores e outra população de baixos rendimentos. Embora a maioria daquela população tenha saído da Portela antes do inicio do período aqui analisado, 2004 a 2014, uma parte razoável só saiu da Quinta da Vitória nos últimos 10 anos, o que coincide com o crescimento do aumento da votação de 75% na CDU aqui referido, e dá ainda maior relevo ao que aqui se fala sobre o aumento de votação na CDU dos últimos 10 anos.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

A UCRÂNIA EM TUMULTO, por Israel Shamir


Por estes dias Kiev não é um local agradável para estar. A emoção revolucionária acabou, e a esperança por novos rostos, o fim da corrupção, e a melhoria económica, secou. A revolta da praça Maidan e o golpe que se seguiu apenas tornaram a baralhar as mesmas cartas marcadas, sempre à volta do mesmo poder.

O novo presidente em exercício era primeiro-ministro em exercício e ex-chefe do SBU (KGB ucraniano). O novo primeiro-ministro interino foi ministro dos Negócios Estrangeiros. O oligarca mais provável de ser "eleito " presidente dentro de dias foi também Ministro dos Negócios Estrangeiros, presidente do banco estatal, e tesoureiro pessoal de dois golpes de Estado, em 2004 (a instalação de Yushchenko) e em 2014 (a instalação dele próprio). O seu principal concorrente, Julia Timoshenko, foi durante anos primeira-ministra, até à sua derrota eleitoral em 2010.

Estas foram pessoas que trouxeram a Ucrânia para o seu abjecto estado actual. Em 1991, a Ucrânia era mais rica do que a Rússia, hoje é três vezes mais pobre por causa da má gestão e roubo dessas pessoas. Agora planeiam um velho truque: obter empréstimos em nome da Ucrânia, embolsar o dinheiro e deixar o país endividado, venderem activos estatais a empresas ocidentais e pedir à NATO para entrar e proteger o investimento externo.

Jogam um jogo duro, soqueiras e tudo. A Guarda Negra, uma nova força armada tipo SS, do neo- nazi Sector Direita, ronda o país, prendem e matam dissidentes, activistas, jornalistas. Centenas de mercenários americanos, da empresa " privada" Academi (anteriormente Blackwater ) estão espalhados pelas províncias do Leste e do Sudeste. As reformas impostas pelo FMI cortam as pensões para metade e duplicam as rendas da casa.

O novo regime de Kiev deixa cair o último disfarce de democracia, expulsando os comunistas do parlamento. Com isto ficam ainda mais bem vistos junto dos EUA. Expulsar comunistas, candidatar-se à NATO, condenar a Rússia, e tudo é possível, até mesmo queimar dezenas de cidadãos vivos, como fizeram em Odessa.

(ler continuação do artigo, aqui: http://bit.ly/1jWU6ee )

sábado, 10 de maio de 2014

LIGAÇÃO PORTELA - MOSCAVIDE: NEM RODINHAS NEM 728 DA CARRIS, O QUE FAZ FALTA É UMA LIGAÇÃO ÚNICA.


À primeira vista até pode parecer uma vantagem, ter duas ligações rodoviárias entre a Portela e Moscavide, o problema é que qualquer delas tem limitações, são uma duplicação desnecessária (o percurso é quase o mesmo), nenhuma delas de per si, nem as duas em conjunto, prestam um serviço aceitável.




O Rodinhas só opera das 7:30 às 19:30 (no verão das 8:00 às 19:00), não funciona ao fim de semana, e para quem tenha passe da Carris, e faça uma ligação por dia ao Metro de Moscavide, ida e volta, representa uma despesa adicional de 1,10 €/dia ou 24 €/mês (sem fins de semana).




O 728 da Carris é mais caro, viagem de 1,25€, ou 1,40€ bilhete comprado no autocarro, em vez dos 0,55 € do Rodinhas, pelo que na pratica é usado sobretudo por quem tem passe da Carris. Além disso o cumprimento dos horários deixa muito a desejar, dado ser uma carreira que atravessa toda a cidade do Restelo à Portela, sendo frequentes tempos de espera de meia hora ou mais, o que é de todo impróprio para um serviço de proximidade e anula completamente a vantagem de termos na Portela o Metro a cerca 2 km de casa.




O que faz falta, em vez de duas ligações, cada uma com as suas limitações, é uma ligação única Portela-Moscavide, assegurada pela Carris, tipo mini bus semelhante aos que a Carris tem nalguns bairros de Lisboa, que obviamente aceite o passe L1, que ofereça igualmente uma tarifa semelhante ao Rodinhas para quem não tenha passe da Carris, que funcione ao fim de semana (como o actual 728), e que ofereça uma ligação Moscavide/Portela das 6:30 à 1:00 da manhã, horário de funcionamento da linha vermelha do Metro.




Uma solução deste tipo teria ainda a vantagem adicional, importante nos tempos de correm, de ter menos custos do que a soma das duas ligações existentes: Rodinhas e 728 da Carris (que se manteria entre Moscavide e Restelo). A Carris teria o beneficio de adicionar à receita dos utentes do 728 as dos actuais clientes do Rodinhas, e a Câmara de Loures pouparia umas largas dezenas de milhares de euros, que actualmente paga ao concessionário pelo serviço do Rodinhas entre a Portela e Moscavide.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

CONTRA A PRIVATIZAÇÃO DA VALORSUL, AGORA O QUE FAZ FALTA É TRAZER A LUTA PARA A RUA.


Conforme pode ver nesta informação "Os presidentes das assembleias municipais de Loures, Lisboa e Vila Franca de Xira, pediram no dia 30 de abril, uma reunião com o ministro do Ambiente, demonstrando a sua discordância quanto à privatização da Empresa Geral do Fomento (EGF) e Valorsul".  Discordância que, de acordo com a noticia, assenta no receio de eventuais prejuízos para a saúde publica se a actividade do tratamento de lixos passar para o privado.


Ora o que pode acontecer como resposta a esta linha de argumentação é o governo dizer que não há caso para preocupações e dar, no papel, todas e mais algumas garantias de que os privados vão assegurar o funcionamento impecável da Valorsul. Garantias que depois na vida real têm um efeito pouco mais de nulo, como já estamos habituados com as benditas entidades reguladores que apenas servem para dar a impressão de que, face aos privados, existe quem defenda os direitos e interesses dos cidadãos.

Parece-me por isso que não chega expressar duvidas e preocupações sobre os efeitos da privatização, e que há que pegar o boi pelos cornos, explicando claramente que a lógica empresarial do lucro é incompatível com os requisitos do serviço publico, nomeadamente numa área tão sensível para a saúde publica como a recolha do lixo.

Claro que esta linha de argumentação não contará com grande apoio ou simpatia daqueles que acham que o privado é que é bom, que o Estado não sabe gerir, e que os partidos o que querem é jobs for the boys.

É mais uma batalha da longa guerra que ainda estamos a perder mas de que temos de inverter o rumo, aliás, da guerra que já começa a dar a volta, como se viu há pouco na vitória contra a privatização da parte de Odivelas dos SMAS de Loures. Batalha a travar não só baseados em princípios mas também nos factos do que tem sido o resultado desastroso para os cidadãos da privatização da água, do lixo, e em geral dos serviços públicos.

Mas há outras linhas de defesa da manutenção da EGF/Valorsul na esfera publica que podem contar com um largo apoio dos munícipes, como por exemplo:

a) A questão da propriedade, o facto de o governo estar a espoliar os Municípios retirando-lhe mais esta receita (a Valorsul dá lucro), o que a par dos cortes no financiamento através do OE, forçam as Câmaras ou a cortar serviços ou a aumentar impostos (IMI, derramas, taxas).

b) A inevitabilidade, no caso de a privatização se concretizar de, a curto ou médio prazo, aumentarem os preços dos serviços de tratamento de lixo. O que em Loures vai claramente contra o desejo e expectativa dos munícipes que querem ver reduzida a "factura da água", que como sabem inclui o preço da água, das águas residuais e do lixo.

Por estes ou outros caminhos, o que agora faz falta é não só dar mais visibilidade ao bom trabalho que a Câmara e Assembleia Municipal de Loures, e das outras autarquias sócias da Valorsul, estão a desenvolver contra a privatização, mas sobretudo trazer a luta para a rua, para os principais interessados, os munícipes com muitas e boas razões para lutar pela manutenção do tratamento do lixo na esfera publica.


Ver também: A PRIVATIZAÇÃO DA VALORSUL, A GREVE DO LIXO, E A FACTURA DA ÁGUA.


terça-feira, 29 de abril de 2014

DOS VIOLINOS DE CHOPIN À MUSICA DE ARY DOS SANTOS.


Provavelmente até há uma razão qualquer, que me escapa totalmente, para esta compulsão de políticos de direita, tão evidente nas comemorações dos 40 anos de Abril, se darem ares de gente culta e/ou de esquerda.

Talvez ainda se lembrem de aqui há uns anos, num momento de auto revelação da sua fascinante pessoa, Santana Lopes confessar numa entrevista: “adoro ouvir os violinos de Chopin”.

Por aqui, no Noticias da Portela e Moscavide deste mês, é a vez do jovem Ricardo Andrade, PSD, líder da coligação Mudar Loures na Assembleia Municipal que, num texto assim para o confessional, onde fala da sua "relação" com Abril, não escapar também à tentação de se enfeitar com uma peninha de esquerda, evocando a musica de, entre outros... ARY DOS SANTOS.

sexta-feira, 25 de abril de 2014

LUÍS PESSOA, UM AMIGO E CAMARADA NA REVOLUÇÃO DE ABRIL
Com alguns factos menos conhecidos da participação do PCP no 25/4


Às primeiras horas do dia 25 de Abril o tenente miliciano Luís Ribeiro Pessoa à frente de duas companhias militares sai pela porta do cavalo das instalações de Santa Margarida depois de ter apontado a arma a um soldado que se recusava a entregar o único mantimento a que conseguiram deitar mão, uns sacos de pães.

Na Golegã as duas companhias juntam-se a outra da EPE, que traz as munições, e sob o comando de Luís Pessoa a coluna ruma a Porto Alto, onde se separam, uma companhia segue para Lisboa, outra vai controlar os acessos da Ponte de Vila Franca de Xira, e a de Luís Pessoa para o objectivo principal, a ocupação e controlo das antenas do Rádio Clube Português em Porto Alto.

Depois de se inteirar em pormenor como se desligavam as antenas, e de ter explicado aos funcionários que a sua missão não era cortar, mas manter no ar a emissão, Luís Pessoa havia de receber mais tarde um telefonema do dono da estação, Jorge Botelho Moniz, homem do regime que como oficial do Exercito tomou parte no 28 de Maio de 1926, a dar ordem para desligar o emissor.

Tudo isto é publico e bem conhecido, mas embora públicos e documentados há outros factos da participação de Luís Pessoa, e do PCP, no 25 de Abril de que quem ainda não sabe vai gostar de ficar a conhecer.

Mas antes disso e como se diz agora, fazer uma declaração de interesses, sou amigo de Luís Pessoa que conheci há 45 anos na casa do pai em Lousa, num dos muitos contactos de José Gouveia (e que eu acompanhava) a democratas do concelho de Loures, com vista à preparação e lançamento do que viria a ser a CDE e a sua participação nas "eleições" de 1969.

Entrando a meio da nossa conversa com o pai, o Luís Pessoa, volta-se para mim e diz: Deixa lá os velhotes recordar os tempos antigos e vamos para ali para me dizeres o que há para fazer. Na altura para aí com uns 20 anos, estava a estudar no IST e só ia ocasionalmente passar os fins de semana a Lousa, mas sem que lhe pedisse nada ofereceu-se logo para em Lisboa fazer o que pudesse, avançando mesmo com meia dúzia de sugestões.

De 1969 a 1972, quando começa o serviço militar, Luís Pessoa é um activo membro do MDP/CDE, com uma forte ligação à zona oriental e operária do concelho de Loures onde faz grandes amigos, a certa altura integrando o Secretariado do MDP/CDE com, entre outros, Lino de Carvalho e António Ferreira.

Mas voltando aos acontecimentos do dia 25 de Abril, apesar da ideia muito difundida de que o PCP não tinha a mais pequena ideia do que se estava a passar, gostaria de lembrar, com o exemplo de Luís Pessoa, que as coisas não foram bem assim.

É na sua qualidade de militante do PCP, e em ligação com a estrutura militar do Partido, que o tenente miliciano Luís Pessoa faz chegar a Otelo, no principio de 1974, a proposta de participação de “dez companhias comandadas por tenentes milicianos que poderiam vir a estar ao serviço do Movimento das Forças Armadas (MFA)”, com condições que, como conta Luís Pessoa, foram aceites: “Otelo garantiu-me ter como objectivos acabar com guerra, negociar a independência dos países africanos, soltar os presos políticos, mas não sabia bem quando, e legalizar os partidos políticos”.

Com base nesse compromisso Luís Pessoa envolve-se activamente na preparação das operações indicando nomes de militares e civis para tarefas do 25/4, e participando em contactos e reuniões preparatórias como por exemplo:

"A 15 de Abril, no café Califa, em Benfica, Otelo, o capitão Frederico Morais e os tenentes milicianos Luís Pessoa e Miguel Amado encontram-se para planear a tomada da Emissora Nacional".

Três dias depois, a 18/4, em casa do então tenente-coronel (Otelo), Luís Pessoa pedia para ter como objectivo “cercar a PIDE na sede da rua António Maria Cardoso”, em Lisboa. A missão entregue foi outra: “Tens que assegurar que a rádio funciona sempre, com segurança próxima, e homens na ponte e no cruzamento”, é a decisão de Otelo.

Outra ideia muito difundida, a de que o comando militar das forças que intervieram a 25/4 foi exclusivamente assegurado por oficiais do quadro permanente, também não é totalmente correcta. Como se refere atrás Luís Pessoa, na altura tenente miliciano, comanda as duas companhias que saem de Santa Margarida, a coluna de 3 companhias até Porto Alto e a companhia que faz a ocupação da antena do RCP de Porto Alto.

quinta-feira, 24 de abril de 2014

O ESTRANHO PROCESSO DE BRANQUEAMENTO DO FASCISMO EM CURSO.


Por razões que a razão desconhece os três ex-presidentes da Republica desta triste e tão maltratada Democracia, decidiram também aderir à campanha de lavagem do fascismo em que as comemorações que actual Situação está a promover para assinalar os 40 anos do 25 de Abril se está a transformar.

Há pouco no Telejornal lá estavam eles na Gulbenkian a ouvir a filha do ultimo presidente do conselho de ministros dos 48 anos de ditadura a fazer o branqueamento da memória do pai.

Para quem possa pensar que o consulado de Marcelo Caetano correspondeu a uma qualquer abertura do regime, e que o seu papel foi o de iniciador da transição para a Democracia, nada de mais errado.

Por exemplo, tal como o Exame Prévio de Marcelo era ainda pior do que a Censura de Salazar, também o tecnocrático nome de DGS, com que crismou a Pide, não só em nada alterou a natureza daquela policia politica, como inclusive o carácter repressivo e violento da sua actuação se agravou nos ultimo anos do fascismo.

Em 21 de Julho de 1973, em Moscavide, numa acção pré-eleitoral de contacto com as populações, semelhante às que os candidatos da CDU às autarquias de Loures realizaram pelas localidades do nosso concelho o ano passado, a PSP prende José Augusto Gouveia, e mais três activistas, que de seguida são entregues à Pide e levados para Caxias.

A 22 de Agosto depois de 3 semanas de tortura e de quase duas semanas em estado de delírio extremo e intenso sofrimento, isolado na sua cela, mas de que outros presos em Caxias se podiam aperceber pelo gritos lancinantes, que mais pareciam dum animal do que dum ser humano, a Pide resolve entregá-lo nas urgências do Hospital Miguel Bombarda, conforme podem ver por esta Guia de Marcha.

Um médico democrata reconhece-o e avisa e família, e só mais de dois meses depois, a 2 de Novembro, José Augusto Gouveia tem finalmente alta do Miguel Bombarda e vai para casa, muito combalido, sem obviamente ter sido objecto de qualquer processo ou acusação. A recuperação, desta sua 4ª prisão pela Pide, foi muito lenta e só se dá verdadeiramente com a alegria do 25 de Abril.

De 1974 a 1976 José Augusto Gouveia desempenha as funções de Presidente da Comissão Administrativa da Câmara de Loures, onde depois disso se mantém por mais alguns anos como vereador.

domingo, 6 de abril de 2014

SONDAGEM À BOCA DAS URNAS DÁ RUI TAVARES, O POLÍTICO MAIS COXINHA DE PORTUGAL, COMO O PREFERIDO DOS COXINHAS DE LISBOA E DO PORTO.


A recente onda de contestação no Brasil, para além de outros contributos importantes para a nossa cultura politica, acaba de nos enriquecer com esta palavra do léxico paulista, que nitidamente fazia falta em Portugal: O COXINHA

Parece que a designação de coxinha tem origem naqueles paulistas que em vez da boa feijoada, preferem coxinha de galinha.

No dia em que o partido LIVRE escolhe, em Lisboa e no Porto, por votação dos seus aderentes, os candidatos ao Parlamento Europeu, é oportuno aqui chamar a atenção para mais esta tendência da vida politica portuguesa. Mas, o que é então o coxinha?

Sociologicamente falando, é um grupo social específico, que compartilha determinados valores. Dentre eles está o individualismo exacerbado, e dezenas de coisas que derivam disso: a necessidade de diferenciação em relação ao restante da sociedade, a forte priorização do requinte em sua vida cotidiana, como elemento de “não-mistura” com o restante da sociedade, aliadas com uma irreprimível necessidade de parecer simpático ou bom moço. São “politicamente corretos”, dentro de sua noção deturpada de política, e nutrem uma arrogância quase intragável, com pouquíssima tolerância a qualquer crítica."

sexta-feira, 4 de abril de 2014

SMAS DE LOURES: OU FOI ASSIM, OU SUSANA AMADOR TEVE UMA EPIFANIA
A propósito do fim do processo de privatização das águas e resíduos sólidos em Odivelas.


Depois de aprovada em reunião de Câmara, a Assembleia Municipal de Odivelas, a 7 de Fevereiro de 2013, decide a denúncia do acordo com os SMAS de Loures e a Concessão a privados dos Serviços de Água e Resíduos Sólidos do concelho de Odivelas, avançando de seguida para o lançamento do Concurso Publico para entregar a privados, durante 30 anos, os serviços assegurados pelos SMAS de Loures.

Claro que o PS Loures se manifestou contra e Carlos Teixeira, a exemplo do que aconteceu aquando da anexação do Parque das Nações por Lisboa, esbracejou também um pouco. Mas tal como o seu lugar na cadeia alimentar do PS o inibiu de enfrentar um peso pesado como António Costa, também no caso dos SMAS de Loures teve de mais uma vez se vergar a decisões superiores, no caso de Susana Amador, Presidente da Câmara de Odivelas, membro do Secretariado Nacional do PS e adjunta de Seguro.

A João Nunes caberia, no caso de ter assegurado a continuação do PS à frente da Câmara de Loures, desempenhar, sob a égide de Susana Amador, o papel de coveiro dos SMAS, com a eventual e provável entrega aos privados do que restasse após a saída de Odivelas.

Só que com a vitória da CDU em Setembro de 2013, o arranjinho ficou de pantanas. Como é óbvio a decisão unilateral de separar os serviços de águas e resíduos sólidos de Odivelas só teria condições de se concretizar sem problemas se contasse com a conivência da Câmara de Loures, e isso era algo que estava completamente fora de questão com Bernardino Soares à frente do município.

Para além da oposição que a separação de Odivelas iria continuar a encontrar por parte da CDU e dos trabalhadores dos SMAS de Loures, pior seriam as dificuldades praticas decorrentes do divórcio litigioso, a inevitável ida para os tribunais, os prováveis e sucessivos recursos para instâncias superiores, o que, tudo somado, podia fazer arrastar o folhetim por longos anos, com pesadas consequências para o processo de privatização que se arriscaria mesmo a ficar sem privatizantes interessados em meter-se em tal imbróglio.

Assim, quando Benardino Soares avança para a negociação com Odivelas, Susana Amador deve ter percebido que, não só estava metida numa camisa de onze varas, como tinha pela frente alguém experiente e genuinamente disposto a negociar, o que não lhe deixava sequer margem de manobra para fingir que sim mas que talvez, e no momento oportuno romper as negociações e atirar com as culpas para cima de Loures e da CDU.

O que terá levado Susana Amador a dar uma reviravolta de 180º, desfazer a decisão de privatizar que já estava tomada, e acordar com Bernardino Soares manter o SMAS que adoptará a forma de serviços multi municipalizados de Loures e Odivelas, só ela poderá dizer, mas cá para mim, ou foi mais ou menos como aqui tentei explicar, ou na estrada do Largo do Rato para Odivelas, talvez ali na Calçada de Carriche onde o burro ultrapassou o Ferrari, Susana Amador terá experienciado uma sublime Epifania que a levou a renegar sem hesitação a sua anterior opção privatizadora, e a converter-se docemente aos benefícios do até aí exprobrado Serviço Publico.

quarta-feira, 19 de março de 2014

A PRIVATIZAÇÃO DA VALORSUL, A GREVE DO LIXO, E A FACTURA DA ÁGUA.


No terceiro dia da Greve da Valorsul contra a privatização da empresa, começam a ser visíveis os efeitos negativos da paralisação, e a situação não será provavelmente pior graças à compreensão da população, na sequência do apelo da Câmara de Loures para que no período da Greve se evite colocar o lixo nos contentores ou na via publica.

É natural que os incómodos causados à população pela falta de recolha de lixo se agravem amanhã e depois, mas nunca será demais referir que os principais interessados na luta contra a privatização da Valorsul são os munícipes de Loures, Lisboa, e dos outros 17 concelhos da região norte de Lisboa, que utilizam os serviços da Valorsul.

Quando se fala dos serviços da Câmara de Loures, uma das questões que invariavelmente vem logo à baila é o elevado valor que pagamos na factura da água que, como sabem, inclui não só o pagamento do abastecimento de água, como a recolha do lixo e as águas residuais.

Apesar de, no que toca ao lixo, a Valorsul, ter um dos preços mais baixos no país. Para dar uma ideia enquanto as câmaras pagam 20 euros por tonelada de lixo entregue à Valorsul, aqui mesmo ao lado a Tratolixo, que serve Cascais, Mafra e outros concelhos da zona oeste cobra 70 euros por tonelada, três vezes e meia mais do que a Valorsul.

Acresce que apesar do baixo preço praticado, a Valorsul ainda dá lucro ao Estado e às câmaras accionistas (6,4 milhões de euros em 2013), o que ajuda a compreender a razão da ânsia do Governo PSD/CDS em privatizar a Valorsul. Não é por a empresa dar prejuízos ou ser ineficiente mas, pura e simplesmente. para entregar mais um negócio rentável aos privados.

Também não será difícil entender que, no caso da privatização da Valorsul ir para a frente, rapidamente os preços cobrados às câmaras irão aumentar, o que inevitavelmente se irá reflectir no aumento do valor, já elevado, que mensalmente pagamos na factura da água.

quarta-feira, 12 de março de 2014

MANIFESTO DOS 70
Acerta em muitos sintomas, mas não faz diagnóstico, e insiste que paciente continue a ser tratado por quem o pôs à beira da morte.


É verdade que o Manifesto diz muita coisa acertada, e óbvia, mas coíbe-se de fazer o diagnóstico (por exemplo de que não há solução para a economia portuguesa dentro desta moeda única), e propõe como interlocutores para a reestruturação da Dívida precisamente aqueles que mais contribuíram para o seu acelarado crescimento (de 94% para 129%) nos últimos dois anos e meio: as instituições europeias, leia-se Comissão, Eurogrupo, BCE, e Merkel obviamente.

Embora possa ter alguma utilidade virem agora mais estes 70 propor a reestruturação da Divida (que não é o mesmo que renegociação e em termos que só prolongariam a agonia), não é caso para ninguém se indignar por não terem convidado pessoal de esquerda para o Manifesto. Fartos estão os 70 de saber que a Renegociação que a Esquerda há muito defende pouco tem a ver com este gato, ou coelho de capoeira, por lebre que agora, em vésperas de eleições, nos querem impingir.

Ver aqui: Texto integral do Manifesto dos 70 

terça-feira, 11 de março de 2014

MANUEL DA FONSECA
15/10/1911 a 11/3/1993


No dia em que passam 23 anos sobre a morte de Manuel da Fonseca transcrevo um post de Carlos Caevalho no FB, seguido duma curta evocação minha.

CARLOS CARVALHO

Manuel da Fonseca, o homem, o intelectual, o escritor, o COMUNISTA. Lembramo-lo hoje, 11 anos após a sua morte! OBRIGADO CAMARADA!

Personalidade cativante, Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém a 15 de Outubro de 1911, no seio de uma família da pequena-média burguesia de província.
Originário de Castro Verde, o avô paterno, de raízes camponesas, estabelecera-se como ferreiro nesta vila próxima da costa alentejana, para escapar a perseguições motivadas por razões sociais e políticas.

O pai, que se tornaria empresário, era pintor autodidacta, grande conversador e contador de histórias.
Oriunda de uma família miguelista com ascendência espanhola, a mãe era filha de farmacêutico.
Ambas as casas, a dos avós maternos e a dos paternos, proporcionaram a Manuel da Fonseca o primeiro convívio com os livros.
Na biblioteca do avô paterno viria a descobrir obras de Garrett, Victor Hugo, Zola, Eça e mesmo O Capital, de Marx.

Após a morte do irmão mais novo, que marcou dolorosamente a sua infância (leia-se o conto «O primeiro camarada que ficou no caminho», de Aldeia Nova), os pais vão viver para Lisboa, ficando Manuel da Fonseca entregue aos avós.
Por volta de 1923, e a fim de prosseguir os estudos secundários, junta-se à família em Lisboa, regressando à vila natal por ocasião das férias escolares.
Frequenta várias escolas e, em 1926, no Liceu Camões é colega de Álvaro Cunhal, dois anos mais novo.

No final dos anos vinte e sobretudo na década de trinta, é a época em que Manuel da Fonseca publica os seus primeiros textos literários na imprensa (principalmente em O Diabo, espaço de divulgação por excelência dos neo-realistas) e, em simultâneo, procura garantir a sobrevivência numa capital cujos encantos aprende a descobrir – e cujos dramas retratará, mais tarde, em livros de ambiência urbana como Um Anjo no Trapézio (1968), Tempo de Solidão (1973), O Vagabundo na Cidade (2000, textos inicialmente publicados em 1967-68) e Pessoas na Paisagem (2002, crónicas vindas a lume entre 1963 e 1971).

Praticante entusiasta de desporto (chegou a jogar futebol nos iniciados do Sporting; praticou esgrima, ténis, equitação, toureio e automobilismo; venceu, inclusive, um campeonato nacional de pesos médios em boxe), Manuel da Fonseca preza, sobretudo, o convívio com companheiros de boémia – que cultivará como ninguém e lhe franqueará as portas das tertúlias de escritores e artistas que, pelos cafés da baixa de Lisboa, em finais dos anos trinta, estão na origem do movimento neo-realista: Redol, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Pavia, Abel Manta, Lopes-Graça e outros.

Mais tarde, relacionar-se-á com o grupo de Coimbra – Joaquim Namorado, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, Fernando Namora – que, em 1941, lhe edita o segundo livro de poesia, Planície, na emblemática colecção «Novo Cancioneiro», com a qual o Neo-Realismo português consubstancia, em poesia, um ideário estético a que subjaz um «novo humanismo», ou seja, um posicionamento ideológico perante o mundo, de raiz marxista e antifascista, solidário com os deserdados da vida.

Antes, Manuel da Fonseca frequentara a Escola de Belas Artes, mas começa entretanto a trabalhar.
Com uma estabilidade laboral problemática, conhecerá, ao longo da vida, os mais diversos empregos.
Como escreve Luísa Duarte Santos, «Faz e refaz a sua vida. Muda de lugares. Muda de amores. Muda de empregos. Precisava de ócio, o ócio essencial ao artista e ao processo criativo».
Dos arquivos da PIDE/DGS, já por volta dos anos sessenta, «constam informações de que tem a profissão de escritor e que vive exclusivamente dos rendimentos do seu trabalho».

Para melhor se entender a personalidade de Manuel da Fonseca – tanto o percurso do intelectual lutador, comprometido com as questões candentes do seu tempo histórico, como a sua condição de protagonista do Neo-Realismo português –, importa no entanto salientar outros traços, no campo da intervenção política, habitualmente relegados para segundo plano por críticos e entrevistadores, designadamente a sua fidelidade ao ideal comunista.

Os primeiros contactos de Manuel da Fonseca com o PCP datam dos anos trinta, ou seja, de um tempo de juventude em que encetava um convívio, que se tornaria profícuo, com figuras ligadas às artes, às ciências e à vida política, como Bento de Jesus Caraça, o arquitecto Keil do Amaral, os pintores Maria Keil e Pavia, o escritor e crítico musical Manuel de Lima e homens de letras como Ferreira de Castro, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, Redol.

Militante comunista desde os anos quarenta, integra o colectivo partidário numa fase decisiva da história do Partido – a da Reorganização de 1940/41 e dos III e IV Congressos (o I e o II ilegais), realizados respectivamente em 1943 e 1946 –, coincidente com o reacender da luta clandestina e da mobilização das massas contra o fascismo, com especial incidência no Alentejo e nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo.
Ou seja, um período em que boa parte dos quadros de direcção formados nos anos da Reorganização provinha da classe operária e se forjava na intervenção directa em lutas de massas (5), e no quadro de uma dinâmica que passou igualmente pela juventude e pela intelectualidade comunistas.

Como escreve Manuel Gusmão, «a primeira metade da década de 40 exemplifica uma tendência que marca a história do PCP: é nos momentos em que cresce (se amplia, se aprofunda) e se renova a influência orgânica na classe operária que cresce também a influência entre os intelectuais.
Esta tese pode formular-se também assim: não há qualquer incompatibilidade, antes há uma correlação efectiva, entre influência operária e influência intelectual.»
A actividade política de Manuel da Fonseca não cessou com o fim da resistência ao fascismo após o 25 de Abril. Continuou a ser um homem e artista interveniente, quer no seio dos intelectuais comunistas, e não só, quer, por exemplo, como candidato da CDU por Setúbal, em 1983, nas eleições legislativas desse ano.

Gostaria de registar as sua principais obras, Cerromaior, Aldeia Nova , «O sete-estrelo», «Viagem», «Nortada» e outras histórias, Fogo e as Cinzas, Seara de Vento, O vagabundo na cidade, Um anjo no trapézio, etc."



J EDUARDO BRISSOS

Conheci Manuel da Fonseca, ou mais propriamente alguns dos seus contos e poemas, via Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, aos onze anos, numas longas férias de Verão passadas no Cercal do Alentejo, freguesia do seu Santiago do Cacém.

Uns poucos de anos mais tarde (para ai em meados dos 60) quando no Atlético de Moscavide organizámos um ciclo de colóquios com escritores e jornalistas, não só propus que o convidássemos como me calhou a mim contactá-lo.

La consegui o telefone do escritório onde trabalhava, e depois de explicar à senhora que me atendeu que desejava falar com o escritor Manuel da Fonseca, num tom que certamente indiciava a minha total e incondicional admiração, a senhora, sem sequer me responder, dá um berro lá para não sei onde: Oh senhor Fonseca, é para si.

Combinámos o que havia para combinar, e no dia acordado, um pouco atrasado, com ar afogueado e boné, ali estava a cumprimentar aquele grupo de operários fabris e jovens suburbanos, como se se tratasse de velhos e estimados companheiros de letras.

Falou-se de alguns dos seus livros, do seu Alentejo, a que muitos de nós também estávamos ligados, da vida nas fábricas, da esperança num futuro melhor.

Nunca mais me cruzei com ele mas sempre que leio um dos seus livros é como se o Manuel da Fonseca, com quem passámos aquele serão há quase cinquenta anos, ali esteja a meu lado, no seu jeito simples e directo de falar, mais uma vez encantar-me com a sua absoluta magia de poeta contador de estórias.