quarta-feira, 12 de março de 2014
MANIFESTO DOS 70
Acerta em muitos sintomas, mas não faz diagnóstico, e insiste que paciente continue a ser tratado por quem o pôs à beira da morte.
É verdade que o Manifesto diz muita coisa acertada, e óbvia, mas coíbe-se de fazer o diagnóstico (por exemplo de que não há solução para a economia portuguesa dentro desta moeda única), e propõe como interlocutores para a reestruturação da Dívida precisamente aqueles que mais contribuíram para o seu acelarado crescimento (de 94% para 129%) nos últimos dois anos e meio: as instituições europeias, leia-se Comissão, Eurogrupo, BCE, e Merkel obviamente.
Embora possa ter alguma utilidade virem agora mais estes 70 propor a reestruturação da Divida (que não é o mesmo que renegociação e em termos que só prolongariam a agonia), não é caso para ninguém se indignar por não terem convidado pessoal de esquerda para o Manifesto. Fartos estão os 70 de saber que a Renegociação que a Esquerda há muito defende pouco tem a ver com este gato, ou coelho de capoeira, por lebre que agora, em vésperas de eleições, nos querem impingir.
Ver aqui: Texto integral do Manifesto dos 70
terça-feira, 11 de março de 2014
MANUEL DA FONSECA
15/10/1911 a 11/3/1993
No dia em que passam 23 anos sobre a morte de Manuel da Fonseca transcrevo um post de Carlos Caevalho no FB, seguido duma curta evocação minha.
CARLOS CARVALHO
Manuel da Fonseca, o homem, o intelectual, o escritor, o COMUNISTA. Lembramo-lo hoje, 11 anos após a sua morte! OBRIGADO CAMARADA!
Personalidade cativante, Manuel da Fonseca nasceu em Santiago do Cacém a 15 de Outubro de 1911, no seio de uma família da pequena-média burguesia de província.
Originário de Castro Verde, o avô paterno, de raízes camponesas, estabelecera-se como ferreiro nesta vila próxima da costa alentejana, para escapar a perseguições motivadas por razões sociais e políticas.
O pai, que se tornaria empresário, era pintor autodidacta, grande conversador e contador de histórias.
Oriunda de uma família miguelista com ascendência espanhola, a mãe era filha de farmacêutico.
Ambas as casas, a dos avós maternos e a dos paternos, proporcionaram a Manuel da Fonseca o primeiro convívio com os livros.
Na biblioteca do avô paterno viria a descobrir obras de Garrett, Victor Hugo, Zola, Eça e mesmo O Capital, de Marx.
Após a morte do irmão mais novo, que marcou dolorosamente a sua infância (leia-se o conto «O primeiro camarada que ficou no caminho», de Aldeia Nova), os pais vão viver para Lisboa, ficando Manuel da Fonseca entregue aos avós.
Por volta de 1923, e a fim de prosseguir os estudos secundários, junta-se à família em Lisboa, regressando à vila natal por ocasião das férias escolares.
Frequenta várias escolas e, em 1926, no Liceu Camões é colega de Álvaro Cunhal, dois anos mais novo.
No final dos anos vinte e sobretudo na década de trinta, é a época em que Manuel da Fonseca publica os seus primeiros textos literários na imprensa (principalmente em O Diabo, espaço de divulgação por excelência dos neo-realistas) e, em simultâneo, procura garantir a sobrevivência numa capital cujos encantos aprende a descobrir – e cujos dramas retratará, mais tarde, em livros de ambiência urbana como Um Anjo no Trapézio (1968), Tempo de Solidão (1973), O Vagabundo na Cidade (2000, textos inicialmente publicados em 1967-68) e Pessoas na Paisagem (2002, crónicas vindas a lume entre 1963 e 1971).
Praticante entusiasta de desporto (chegou a jogar futebol nos iniciados do Sporting; praticou esgrima, ténis, equitação, toureio e automobilismo; venceu, inclusive, um campeonato nacional de pesos médios em boxe), Manuel da Fonseca preza, sobretudo, o convívio com companheiros de boémia – que cultivará como ninguém e lhe franqueará as portas das tertúlias de escritores e artistas que, pelos cafés da baixa de Lisboa, em finais dos anos trinta, estão na origem do movimento neo-realista: Redol, Mário Dionísio, José Gomes Ferreira, Pavia, Abel Manta, Lopes-Graça e outros.
Mais tarde, relacionar-se-á com o grupo de Coimbra – Joaquim Namorado, João José Cochofel, Carlos de Oliveira, Fernando Namora – que, em 1941, lhe edita o segundo livro de poesia, Planície, na emblemática colecção «Novo Cancioneiro», com a qual o Neo-Realismo português consubstancia, em poesia, um ideário estético a que subjaz um «novo humanismo», ou seja, um posicionamento ideológico perante o mundo, de raiz marxista e antifascista, solidário com os deserdados da vida.
Antes, Manuel da Fonseca frequentara a Escola de Belas Artes, mas começa entretanto a trabalhar.
Com uma estabilidade laboral problemática, conhecerá, ao longo da vida, os mais diversos empregos.
Como escreve Luísa Duarte Santos, «Faz e refaz a sua vida. Muda de lugares. Muda de amores. Muda de empregos. Precisava de ócio, o ócio essencial ao artista e ao processo criativo».
Dos arquivos da PIDE/DGS, já por volta dos anos sessenta, «constam informações de que tem a profissão de escritor e que vive exclusivamente dos rendimentos do seu trabalho».
Para melhor se entender a personalidade de Manuel da Fonseca – tanto o percurso do intelectual lutador, comprometido com as questões candentes do seu tempo histórico, como a sua condição de protagonista do Neo-Realismo português –, importa no entanto salientar outros traços, no campo da intervenção política, habitualmente relegados para segundo plano por críticos e entrevistadores, designadamente a sua fidelidade ao ideal comunista.
Os primeiros contactos de Manuel da Fonseca com o PCP datam dos anos trinta, ou seja, de um tempo de juventude em que encetava um convívio, que se tornaria profícuo, com figuras ligadas às artes, às ciências e à vida política, como Bento de Jesus Caraça, o arquitecto Keil do Amaral, os pintores Maria Keil e Pavia, o escritor e crítico musical Manuel de Lima e homens de letras como Ferreira de Castro, Mário Dionísio, Armindo Rodrigues, Redol.
Militante comunista desde os anos quarenta, integra o colectivo partidário numa fase decisiva da história do Partido – a da Reorganização de 1940/41 e dos III e IV Congressos (o I e o II ilegais), realizados respectivamente em 1943 e 1946 –, coincidente com o reacender da luta clandestina e da mobilização das massas contra o fascismo, com especial incidência no Alentejo e nas regiões de Lisboa e Vale do Tejo.
Ou seja, um período em que boa parte dos quadros de direcção formados nos anos da Reorganização provinha da classe operária e se forjava na intervenção directa em lutas de massas (5), e no quadro de uma dinâmica que passou igualmente pela juventude e pela intelectualidade comunistas.
Como escreve Manuel Gusmão, «a primeira metade da década de 40 exemplifica uma tendência que marca a história do PCP: é nos momentos em que cresce (se amplia, se aprofunda) e se renova a influência orgânica na classe operária que cresce também a influência entre os intelectuais.
Esta tese pode formular-se também assim: não há qualquer incompatibilidade, antes há uma correlação efectiva, entre influência operária e influência intelectual.»
A actividade política de Manuel da Fonseca não cessou com o fim da resistência ao fascismo após o 25 de Abril. Continuou a ser um homem e artista interveniente, quer no seio dos intelectuais comunistas, e não só, quer, por exemplo, como candidato da CDU por Setúbal, em 1983, nas eleições legislativas desse ano.
Gostaria de registar as sua principais obras, Cerromaior, Aldeia Nova , «O sete-estrelo», «Viagem», «Nortada» e outras histórias, Fogo e as Cinzas, Seara de Vento, O vagabundo na cidade, Um anjo no trapézio, etc."
J EDUARDO BRISSOS
Conheci Manuel da Fonseca, ou mais propriamente alguns dos seus contos e poemas, via Biblioteca Itinerante da Gulbenkian, aos onze anos, numas longas férias de Verão passadas no Cercal do Alentejo, freguesia do seu Santiago do Cacém.
Uns poucos de anos mais tarde (para ai em meados dos 60) quando no Atlético de Moscavide organizámos um ciclo de colóquios com escritores e jornalistas, não só propus que o convidássemos como me calhou a mim contactá-lo.
La consegui o telefone do escritório onde trabalhava, e depois de explicar à senhora que me atendeu que desejava falar com o escritor Manuel da Fonseca, num tom que certamente indiciava a minha total e incondicional admiração, a senhora, sem sequer me responder, dá um berro lá para não sei onde: Oh senhor Fonseca, é para si.
Combinámos o que havia para combinar, e no dia acordado, um pouco atrasado, com ar afogueado e boné, ali estava a cumprimentar aquele grupo de operários fabris e jovens suburbanos, como se se tratasse de velhos e estimados companheiros de letras.
Falou-se de alguns dos seus livros, do seu Alentejo, a que muitos de nós também estávamos ligados, da vida nas fábricas, da esperança num futuro melhor.
Nunca mais me cruzei com ele mas sempre que leio um dos seus livros é como se o Manuel da Fonseca, com quem passámos aquele serão há quase cinquenta anos, ali esteja a meu lado, no seu jeito simples e directo de falar, mais uma vez encantar-me com a sua absoluta magia de poeta contador de estórias.
quarta-feira, 5 de março de 2014
JANTAR DE GALA À PALA DOS POBREZINHOS
A Obra Diocesana de Promoção Social do Porto decidiu comemorar os 50 anos de existência e. vai daí, realizou no passado dia 7 de Fevereiro no Palácio da Bolsa do Porto um Jantar de Gala, onde obviamente não houve lugar para nenhum dos pobrezinhos da dita Obra, como pode constatar pelas fotografias do Banquete: http://bit.ly/1jRPyno
Mas o melhor é darmos a palavra ao nosso amigo Padre Mário Pais de Oliveira:
"O momento alto veio a ser o jantar comemorativo dos 50 anos, realizado no dia seguinte ao da missa. Um jantar de gala, pois então. Bem longe dos bairros degradados do Porto, por onde a ODPS estende a sua hipócrita acção de caridadezinha e de “promoção” da pobreza. Para isso foi criada. Não para acabar com a pobreza, mas para a promover. Os ricos precisam de obras assim, para descarregarem a consciência e, cada noite, dormirem descansados. Sabem que os pobres que produzem jamais se rebelam contra este tipo de mundo, enquanto houver obras como esta, administradas por cristãos ricos que, assim, aparecem aos olhos dos pobres, como seus benfeitores e não como os seus fabricadores. A comprovar a verdade do que aqui acaba de ser escrito, diga-se que o jantar decorreu no Palácio da Bolsa. Sim, Palácio da Bolsa. Não há engano. A missa, foi na Sé Catedral do Porto. E o banquete não lhe quis ficar atrás e foi degustado no Palácio da Bolsa. Bem longe dos pobres da diocese, condenados a ter de viver em bairros degradados, ou assim, assim. Bairros de habitação social. Que estigmatizam quem neles vive, tal como o Palácio da Bolsa enobrece quem o frequenta. Cada um no seu lugar, pois então. Os ricos, no Palácio da Bolsa. Os pobres, nos Bairros de habitação social. Tudo nos conformes, tal como a Diocese, com os bispos no palácio episcopal e no topo do interior da catedral, e todos os outros diocesanos, a seus pés."
Adenda
O QUE FAZ FALTA É PASSARMOS À CONTESTAÇÃO E AO PROTESTO.
Em poucos dias este post no Facebook já vai em cerca 700 partilhas, o que é caso raro para posts desta natureza. O mérito vai todo para as palavras do nosso amigo Padre Mário Pais de Oliveira, autor do excerto que retirei dum seu escrito mais longo sobre as comemorações dos 50 anos da ODPS, e para o autor das fotos (ver álbum completo aqui: http://bit.ly/1jRPyno ) que, provavelmente com intenção diversa, acaba por nos brindar com uma galeria antológica de imagens de "fabricadores de pobres" promotores da caridadezinha.
A atenção que o post está a merecer é um bom sintoma de que ainda não perdemos a capacidade de nos interessarmos e indignarmos. O que é preciso é não ficarmos apenas pela indignação e repulsa, o que faz falta é passarmos à contestação e ao protesto.
E para fazer ouvir as nossas vozes não faltam oportunidades, desde a participação nas múltiplas e variadas acções com que diariamente vamos tentando resistir ao roubo e destruição impostas por esta gentinha demente e criminosa que nos desgoverna, às comemorações do 40º aniversário do 25 de Abril, ou às eleições Europeias onde ninguém se deve abster de expressar a sua veemente condenação às politicas ruinosas da troika PS, PSD, e CDS.
FB 5/3
sábado, 1 de março de 2014
CÂMARA DE LOURES: PARECE QUE NESTE CASO FOI O LADRÃO QUE DEU EM FRADE.
Diz um ditado popular que quando um frade e um ladrão se juntam, ou o ladrão dá em frade ou o frade dá em ladrão, sendo esta ultima hipótese a mais provável.
Terá sido talvez este o raciocínio que, no passado Outubro, fizeram muitos daqueles que condenaram o acordo da CDU com o PSD para a gestão da Câmara de Loures.
Preocupações que se adensaram com a nomeação de Fernando Costa, PSD, para a Administração da Valorsul, conhecido que já era o plano do governo PSD/CDS para a privatização daquela empresa.
Contudo, passados alguns meses, o que vemos é Fernando Costa ir ao Congresso do PSD manifestar-se contra a privatização da Valorsul o que, com o devido respeito para Fernando Costa (o ladrão nesta estoria é o PSD), me leva a concluir que neste caso, ao contrário do que será habitual, não foi o frade que deu em ladrão, mas o ladrão que deu em frade.
FB 1/3/2014
sexta-feira, 21 de fevereiro de 2014
FAMÍLIAS MULTI DESAFIADAS
No tempo da outra senhora havia um tipo em Abrantes que dedicava os seus tempos livres a inventar anedotas sobre Salazar.
Parece que agora o homem de Abrantes mudou de ramo e se ocupa a tempo inteiro a fornecer a industria da caridade e assistência social, com aqueles slogans catitas que dão um ar mais modernaço às social caritativas ruminações.
Em menos duma semana, e depois do "ROI SOCIAL" e das "TÉCNICAS DE INFORMAÇÃO VIRAL APLICADAS À PROBLEMÁTICA DA IMIGRAÇÃO" tropeço hoje na noticia dum Encontro dedicado ao tema das "FAMÍLIAS MULTIDESAFIADAS".
FB 21/2
ADENDA
Não esquecendo claro o CURSO DE MARKETING PESSOAL E TEATRALIZAÇÃO EMPRESARIAL
quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014
ASSIM ATÉ DÁ GOSTO SER IMIGRANTE, DESTA VEZ ACHO QUE VOU PARA FORA CÁ DENTRO.
"Ao longo da tarde ainda houve tempo para a apresentação do projeto C4I – Comunicação para a Integração, que tem como objetivo lutar contra preconceitos, rumores e estereótipos sobre a imigração, usando técnicas de informação virais. A ideia é criar uma rede local de cativação e formação de atores locais e desenvolver uma estratégia de comunicação integrada."
FB 20/2
quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014
AS DIVERGÊNCIAS DO KKE, E OUTROS PARTIDOS COMUNISTAS
No o 15º Encontro Internacional de Partidos Comunistas e Operários, Novembro de 2013, Lisboa.
1 . Não existem estágios intermediários entre o capitalismo e o socialismo. Não há nenhuma base para as coligações reformistas - estas limitam-se a "gerir" o capitalismo. Os comunistas não devem envolver-se em alianças com sectores capitalistas - por exemplo, com o capital não monopolista. Frentes anti- fascistas devem ser rejeitados. O caminho é a luta para derrubar o capitalismo .
2 . Lutar pela soberania nacional - por exemplo, num país capitalista que enfrenta os ditames do FMI - não é uma actividade comunista legítima, representa uma aliança com elementos capitalistas.
3 . A ideia de um mundo multipolar é rejeitada. O conceito dos BRICS - Brasil, Rússia , Índia, China e África do Sul - ou outros, tais como na América Latina, emergindo como alternativa ao imperialismo ocidental é rejeitada - estes são simplesmente países capitalistas burgueses.
4 . Identificar a financeirização como uma característica particular do capitalismo de hoje é um logro. O capitalismo é o capitalismo.
5 . O "Socialismo de mercado ", adotado por vários partidos de governo (incluindo a China , Vietnam, Laos e Cuba), é rejeitado.
(dum artigo de Susan Webb, aqui: http://bit.ly/LYsJlt )
A posição mais desenvolvida do KKE, Partido Comunista Grego, em diversas línguas, incluindo português, pode ser vista aqui: http://bit.ly/1jdgTzF
FB 13/2
sexta-feira, 31 de janeiro de 2014
HOMENAGEM AOS ADVOGADOS DOS PRESOS POLÍTICOS NOS TRIBUNAIS PLENÁRIOS (1945-74)
Lista dos nomes dos advogados de presos políticos obtida pelo Movimento Não Apaguem a Memória para a homenagem de sua iniciativa que se realizou a 28 de Janeiro de 2014, na Assembleia da República, com o apoio desta e da Ordem dos Advogados.
(clique na imagem para ver todos os nomes)
FB 31/1
domingo, 26 de janeiro de 2014
TRIÂNGULO DAS BERMUDAS NA PORTELA E MOSCAVIDE?
O prezado leitor já deve ter ouvido falar no Triângulo das Bermudas, uma zona dos mares das Caraíbas onde, de vez em quando, sem deixar rasto nem vestígios, barcos grandes e pequenos desaparecem misteriosamente.
Pois parece que aqui ao pé da porta, na Portela e Moscavide, durante o mandato de Carlos Teixeira, algo de semelhante aconteceu: um terreno municipal, de forma triangular, entre os Bombeiros, o Seminário, e a rotunda do Pingo Doce, terá também desaparecido misteriosamente do património da Câmara de Loures.
Sabemos que em 2007 o terreno ainda pertencia à câmara, pelo menos é isso que podemos ler no Loures Municipal nº 29 de Junho de 2007, que anuncia a assinatura dum protocolo entre a câmara e a Sogiporto para ali construir, em terreno MUNICIPAL, 68 fogos para alojar famílias da Quinta da Vitória.
Ora naquele triângulo nada foi construído para os moradores da Quinta da Vitória, que acabaram realojados noutras paragens, e o que lá está agora são umas palmeiras e um pavilhão de venda da 2ª fase do loteamento dos Jardins do Cristo Rei, o que me leva a deixar aqui as seguintes perguntas:
a) Aquele terreno municipal foi vendido? Quando? E por quanto?
b) Foi permutado? Por outro? Que está onde?
c) Foi oferecido? A quem? E a propósito de quê?
d) Ou terá sido engolido pelo fatídico triângulo das Bermudas, perdão, triângulo da Portela e Moscavide?
FB 26/1
sábado, 18 de janeiro de 2014
FAZES-NOS UMA FALTA DO CARAÇAS, ARY DOS SANTOS
Vi-te declamar pela primeira vez, há mais de quarenta anos, num convívio de operários da cintura industrial de Lisboa, no Centro Social e Paroquial de Moscavide. Para quem lá esteve e se recorda de te ouvir a dizer A SIGLA (SARL), sabe que os poucos registos que nos ficaram do imenso declamador não te fazem justiça.
Eras um gajo grande, exuberante, mas em frente duma audiência crescias ainda mais dois palmos. A voz ganhava força, o punho direito martelava as palavras, poeta e poema fundiam-se numa mensagem de denuncia, protesto, revolta e esperança. Foste um poeta de tempos difíceis, que neste tempo desgraçado nos volta a fazer uma falta do caraças.
SIGLA
S.A.R.L. S.A.R.L S.A.R.L.
a pança do patrão não lhe cabe na pele
a mulher do gerente não lhe cabe na cama.
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
o cabedal estoira
e o capital derrama
O salário é sagrado
o direito é divino
mais o caso arrumado do poder que é bovino.
O papel é ao quilo
o cadáver ao metro
mais o isto e aquilo
com que se mata o preto.
O retrato é chapado
a moldura é antiga
para um homem armado
a catana é cantiga.
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
o respeito algemado
o sorriso fiel
do senhor cão pastor que tem coleira aos bicos
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
só salvamos a pele se formos cães de ricos:
A palhota de mágoa
a casota de medo
mais o pão e a água
que nos dão em segredo.
A gaveta arrumada
a miséria contida
mais a fome enfeitada
que há num dia de vida.
O cachorro quieto
o prazer solitário
do filho predilecto
do doutor numerário.
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
a folha de serviços a folha de papel
o fabrico o penico o sono estuporado.
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
o silêncio por escrito o silêncio ladrado:
A mensagem urgente
o envelope fechado
mais o rabo pendente
do animal escorraçado.
O contínuo presente
o contínuo passado
mais a fala deferente
do contínuo coitado:
Permite-me permite
Vossa Celebridade
o limite o limite
o limite de idade?
S.A.R.L. S.A.R.L. S.A.R.L.
Ai o sal deste mar ai o mel deste fel
o azeite o bagaço
o cagaço o aceite
deste lagar Tarzan traumatizado.
Ai a fase do leite
ai a crise do gado
neste curral sinónimo do homem
ANÓNIMO
RESPONSÁVEL
LIMITADO.
(Ary dos Santos, INSOFRIMENTO IN SOFRIMENTO, 1969)
FB 18/1
terça-feira, 14 de janeiro de 2014
TRANSPARÊNCIA E PROXIMIDADE NA ERA DIGITAL.
"quem estiver interessado em apresentar sugestões, informações ou reclamações (...) pode fazê-lo por escrito, através da entrega de requerimento dirigido ao Presidente da Câmara Municipal, identificando-se devidamente e expondo as questões que considerar pertinentes."
FB 14/1
quinta-feira, 2 de janeiro de 2014
DISCUSSÃO PUBLICA DO PDM DE LOURES
Será que podemos confiar na documentação do PDM?
Curioso por saber o que está previsto nesta revisão em curso do PDM de Loures para os terrenos do antigo bairro de habitação precária da Quinta da Vitória na Portela, e embora sem grande esperança de ficar elucidado (aquilo é coisa para especialistas), fui dar uma vista de olhos à documentação do PDM disponível no site da Câmara de Loures.
Comecei pelo Relatório da Revisão do Plano Director Municipal de Loures, de Julho de 2013, e calculem que, logo à primeira, fui parar ao Quadro nº2 – População Residente por Freguesia e Escalão Etário (página 97, Fonte: INE, Censos 2011), onde se diz que a Portela tinha, em 2011, 18469 habitantes. Ora o que o Censo de 2011 realmente diz é que a população da Portela era nessa data 11089 habitantes, ou seja para o PDM de Loures a Portela tinha, em 2011, mais 64% dos habitantes do que aqueles que realmente cá moram.
A seguir fui ver a Planta dos Compromissos Urbanísticos, de Abril de 2013, e constato que se continua a ignorar que a parte norte do Parque da Nações já não pertence ao concelho de Loures desde Junho de 2012.
Nas únicas informações que vi e que posso confrontar com o que conheço, apanhar logo com dois erros em dois, uma taxa de erro de 100%, pode ter sido uma infeliz coincidência, talvez apenas dois lapsos sem quaisquer implicações praticas, mas o facto é que a minha confiança na informação disponível do PDM ficou um bocado abalada.
Voltando à razão da minha consulta, saber se há alguma coisa prevista para os terrenos agora livres da Quinta da Vitória, deparo com a auspiciosa informação, na tal Planta dos Compromissos Urbanísticos, de que não existe qualquer Loteamento ou Compromisso para aqueles terrenos.
Mas será mesmo? Será que a sociedade imobiliária Sogiporto, do grupo Finibanco, que comprou aquele terreno e que já gastou uns largos milhares de euros em indemnizações aos antigos moradores para de lá saírem, o fez sem lhe ser garantido qualquer direito de loteamento e construção naqueles terrenos? Será que estamos perante uma nova modalidade de capital financeiro de natureza filantrópica? Ou será mais um erro da documentação do PDM de Loures em que, azar meu, fui mais uma vez encalhar?
FB 2/1
quarta-feira, 20 de novembro de 2013
Na campanha da CDU
A BENDITA FOTO DA ARRUADA DE CAMARATE
"Uma das maiores arruadas no Concelho, que mobilizou e influenciou as pessoas para votar na CDU e dar a volta tão ansiada!!!"
Manuel Glória, Presidente da freguesia de Loures, num post com esta foto
Ao contrario de Manuel Glória, que sabe disto muito mais do que eu, não é certamente por acaso que ganhou a freguesia de Loures depois de vários anos da CDU na oposição, nunca vi grande eficácia eleitoral nas arruadas, que sempre encarei mais como actos de festejo das campanhas e de celebração da liberdade e da democracia de que as eleições são expressão.
No entanto e à cautela, que precauções e caldos de galinha nunca fizeram mal a ninguém, não só estive na arruada de Moscavide, como até fui à de Camarate e, embora sem qualquer intenção de tirar retratos, a certa altura, e como tinha ali à mão na mochila uma máquina nova, decidi fazer meia dúzia de bonecos, mais para testar a maquina do que para lhes dar qualquer uso.
Acontece que uma dessas fotos acabou por ser capa de álbum no post da arruada de Camarate, depois disso alguém a promoveu por uns dias a foto do perfil do CDU Loures, de vez em quando vejo-a por aí a enfeitar posts do FB, e a verdade é que não só começo a afeiçoar-me à bendita foto como, se insistem muito, talvez um dia destes ainda acabem por me ver rendido, naquela parte de que podem dar boas fotos, aos méritos das arruadas eleitorais.
segunda-feira, 14 de outubro de 2013
HOJE, 14/10/2013, ÀS 21:30 NO AUDITÓRIO DA IGREJA DA PORTELA, TOMADA DE POSSE DOS ÓRGÃOS AUTÁRQUICOS DA UNIÃO DE FREGUESIAS DE MOSCAVIDE E DA PORTELA.
As eleições foram ganhas pelo PSD que partindo em aparente posição de desvantagem, cerca de menos 200 votos do que o PS no somatório das duas freguesias em 2009, teve agora para a nova união mais 1000 votos do que o PS, que ficou em 2º lugar. A CDU ficou em 3º lugar, embora no que se refere a Moscavide passe de 3ª a 2ª força politica, à frente do PSD.
Mesmo sem ter acompanhado de perto estas eleições, não é difícil perceber que o sucesso de Manuela Dias, entre 2009 e 2013 Presidente da Freguesia da Portela, e a partir de hoje da União das Freguesias de Moscavide e da Portela, tem uma forte componente local e pessoal.
Ignorando completamente que foi o PSD o principal responsável pela união forçada das freguesias de Moscavide e Portela, medida rejeitada pela grande maioria dos moradores das duas freguesias (e que surpreendentemente não foi tema da campanha), e a politica anti trabalhadores e anti popular do PSD ao longo dos últimos 2 anos, e que noutros locais lhes foi fortemente penalizadora, em Moscavide e Portela o PSD acaba por alcançar uma, em principio, inesperada vitória.
Para isso muito deve ter contribuído a forte penalização do PS resultante da associação de Daniel Lima, e respectiva família Lima, àquilo que muitos consideram ser o nepotismo, compadrio, e despesismo, que caracterizaram os últimos 12 anos de gestão PS na Câmara de Loures e nas suas freguesias no concelho.
Capitalizando a seu favor a boa imagem da Portela, resultante em larga medida das boas condições urbanísticas da freguesia e dos agradáveis arranjos dos seus espaços verdes (que vêm do tempo da presidência de Adão Barata, CDU, e completados na anterior gestão de Carlos Teixeira, PS), Manuela Dias desenvolveu ainda ao longo da campanha uma incansável actividade de contactos pessoais nas duas freguesias, e muito em particular em Moscavide, que muito deve ter contribuído para aquela saborosa vitória.
Neste inicio de mandato, saudando a nova equipa dirigente da Junta de Freguesia, e os representantes na Assembleia de Freguesia, e em particular Patrícia Gonçalves, da CDU, estreante nestas andanças e que teve o meu voto nestas eleições, gostaria de deixar aqui dois pedidos aos eleitos: primeiro que as várias forças politicas façam um esforço para se entenderem, não há uma maioria absoluta; e segundo que não aceitem a união de Moscavide e Portela como facto consumado para todo o sempre, quer mantendo em funcionamento todos os serviços virados para o publico das duas anteriores freguesias, quer continuando a luta para pôr termo a esta aberração administrativa de juntar à força aquilo que a grande maioria quer que continue autónomo.
domingo, 13 de outubro de 2013
HANNAH ARENDT, A BANALIDADE DO MAL E OS BUROCRATAS DA DESTRUIÇÃO
Os filmes nunca fazem justiça aos livros, e o "Hannah Arendt" de Margarethe von Trotta não é excepção, apesar de ser um grande filme, ver por exemplo a opção de apresentar imagens reais do julgamento, sobretudo de Eichmann, ou a grande sensibilidade como é tratada a relação com Heidegger, não o relato duma relação complexa e só por si merecedora dum filme, mas apenas as recordações de Hannah pertinentes para o drama com que se debate ao tentar pensar, sem preconceitos, dogmas ou lugares comuns, um dos acontecimentos mais trágicos do nosso passado recente, o extermínio deliberado e sistemático de judeus (e outras minorias menos faladas) pelo nazismo.
Não sendo propriamente uma grande pensadora (todo o destaque que a direita lhe dá se deve à natural e franciscana pobreza de intelectuais próprios), Hannah Arendt tem o mérito de, a propósito de um caso limite, ter posto na ordem do dia aquilo a que designou por a banalidade do mal, e ter chamado a atenção para o perigo que as modernas burocracias representam quando colocadas ao serviço de projectos anti sociais e anti humanos (crimes contra a humanidade chamou-lhe ela, e muito bem).
Banalidade do mal que, embora em formas bem menos virulentas, ao tempo do julgamento de Eichmann ainda por cá enfrentávamos nos olhos. Por exemplo nos ultimo anos do fascismo as longas sessões de tortura do sono eram em boa parte asseguradas por jovens funcionários, sem quaisquer motivações politicas ou ideológicas (a que nos anos antes do 25 de Abril a Pide se viu forçada a recorrer por óbvia falta de "vocações"), e que faziam o seu turno de tortura, do preso politico que lhes tinha calhado na escala de serviço, com o mesmo interesse e entusiasmo com que poderiam estar a conferir declarações de IRS numa repartição de finanças, ou numa agência bancária a lançar movimentos nas contas correntes de clientes.
Banalidade do mal, que continua na ordem do dia, e que agora nos é imposta pelas tropas de choque do grande capital que, nos nossos dias, são as burocracias do FMI, Banco Europeu, Comissão Europeia, e seus lacaios nacionais, e que nos vai destruindo a vida, a esperança, o presente e o futuro.
A grande limitação da obra de Hannah Arendt, e de muitos dos que agora se insurgem contra a destruição das nossas vidas, é não conseguirem descortinar para além dos mecanismos do mal e da falta dos mais elementares princípios de ética, moral e humanidade dos seus executantes.
É, ao mesmo tempo que muito justamente se indignam, não conseguirem apontar para o responsável último dos nossos dramas pessoais e da nossa tragédia colectiva de país submetido aos ditames das politicas austeritárias: o capitalismo globalizado, financeirizado, descontrolado e auto-fágico que há-de dar cabo de todos nós, se antes não dermos nós cabo dele (ou pelo menos se não o metermos rapidamente na linha).
Subscrever:
Mensagens (Atom)














