HABITUALMENTE não reflicto muito na véspera de eleições. Basta-me observar o dia-a-dia, ter as minhas convicções e andar razoavelmente informado para formar a minha opinião. No entanto, não abdico de reflectir sobre os resultados eleitorais, porque normalmente vão condicionar o meu-nosso futuro, logo, costumo investir algum tempo a digeri-los, e naturalmente, a articular conclusões.
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COMO já referi no meu blog
O ESCREVINHADOR, neste acto eleitoral, a abstenção, se tivesse nome de gente, teria ganho as eleições e dado ordem de despejo a Cavaco Silva, do Palácio de Belém. E isso tem um significado: seja pelo variado elenco de candidatos, ou pela vulgaridade dos seus objectivos, os políticos à esquerda de Cavaco Silva falharam redondamente. Não souberam interpretar as inquietações do eleitorado, que subjaz ao descontentamento que se vive, e não souberam (ou não quiseram) almejar entendimento, concentrando-se numa candidatura consensual, que pudesse enfrentar, de igual para igual, o candidato da direita. Resultado: o eleitorado, descontente com a pulverização à esquerda, acabou dar o seu voto aos candidatos “freelancer” (Fernando Nobre e Manuel Coelho), ou então renunciaram a votar. E as conclusões estão à vista: há 5 anos, Manuel Alegre com uma candidatura autónoma anti-PS facturou mais de um milhão de votos. Agora, apoiado por esse mesmo PS e pelo BE perdeu 300.000 votos. Francisco Lopes averbou menos votos que Jerónimo de Sousa nas eleições transactas, e Fernando Nobre que fez questão de se apresentar sem apoios partidários, averbou 600.000 votos. O ex-comunista e actual PND José Manuel Coelho, voluntarioso e a remexer nas feridas abertas, chegou quase aos 190.000 votos.
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POR ISSO, no fundamental concordo com o Brissos, naquele post que ele assinou no blog
ESSÊNCIA DA PÓLVORA. E insisto nesta ideia: o PCP, e também o BE, têm especiais responsabilidades em não conseguir encontrar um "challenger". Francisco Lopes passou a mensagem do PCP de forma rigorosa, foi oportuno e pedagógico, porém o PCP continua a perder moderadamente votos, mas é preciso muito mais do que isso. Para as próximas eleições presidenciais (e não só nessas), o PCP precisa de encontrar, ou colaborar empenhadamente na busca de uma figura de consenso, sobretudo independente, mas que se identifique com políticas e causas de esquerda, que seja capaz de reconquistar o eleitorado do PCP, que aglutine o descontentamento que grassa numa significativa franja do PS e estimule o eleitorado do Bloco de Esquerda, que desta vez, tão prematuramente se colou à apressada e apatetada candidatura de Manuel Alegre, uma iniciativa fabulosa e tresloucada, empenhada em tentar reeditar e multiplicar a votação de há cinco anos atrás, quando as condições, eram bem diferentes das actuais. De facto, os tempos são outros, e já era altura de o PCP abandonar aquele princípio (e pelo caminho alguns outros) de que só apoia aquilo que pode controlar a 100%. Talvez por isso, para mim, as eleições presidenciais não tenham passado de um acontecimento menor, em comparação com o que vamos ter que enfrentar no futuro, agora que Sócrates viu renovada a cumplicidade e a protecção institucional da Presidência da República.
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NÃO QUERO falar de números nem de efabulações aritméticas; quero apenas lembrar que quem tem intenções de votar à esquerda, perdeu o pé, e os partidos que têm responsabilidades nisso, e cuja implantação não é negligenciável, pouco ou nada fazem para que a democracia mude de rumo. Por isso, e não só, é forçoso que haja alguém que convença o PCP, de que ele não é apenas um partido contestatário e vigilante da consciência e moral socialista, mas também um partido de poder, não hegemónico, é certo, mas detentor de ideias justas e de quadros altamente competentes e dinâmicos, com grandes probabilidades de participarem na inversão deste declínio, para que a sociedade portuguesa está a ser arrastada. Se o PCP chegou até aos dias de hoje, com as correspondentes despesas que os abanões da história sempre cobram, à mistura com algumas clamorosas e dispensáveis purgas, penso que é chegada a altura de enfrentar a realidade, mandar render a guarda e enfrentar os combates que se adivinham, abrindo novos caminhos e sugerindo outros destinos. Em democracia, os partidos políticos têm, e sempre terão, grandes responsabilidades, porque são a súmula de uma colectividade de convicções, e a História, ao analisar os grandes momentos, não os isenta de responsabilidades, antes pelo contrário.
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FALTA acrescentar um último ponto a este meu devaneio. Embora haja que respeitar a democracia e os resultados eleitorais, não há que ter medo de sermos críticos das escolhas que o povo português fez, e verbalizar porque discordamos dessas escolhas. As decisões da maioria (tanto as boas como as más, segundo o entendimento de cada um) não podem transformar-se numa espécie de ditadura dissimulada da maioria. Cavaco Silva é o Presidente da República Portuguesa, mas não é o “meu” Presidente, e por uma razão simples: Cavaco Silva já deu provas de não ser presidente de todos os portugueses, seja por preconceito, por atitudes, ou por outras razões não negligenciáveis. Se for necessário dizer que o povo escolheu mal, direi que o povo escolheu mal, e até direi porquê. Nem sempre as maiorias, lá porque são maiorias, têm razão, ou sejamos obrigados a dar-lhe razão. Do que não se pode duvidar, é que mesmo podendo estar erradas, essas escolhas são legítimas, logo temos que conviver com elas, e está aí o cerne da democracia. O grande desafio está em encontrar o caminho para o mudar o estado de coisas, e se ele não existir, abri-lo à força de ideias, com arrojo e determinação.